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Religião, ateísmo, teoria da evolução e astronomia

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sábado, 3 de março de 2012

No templo ateu nem a racionalidade será venerada, afirma Botton

Título original: Em louvor à descrença

por Nathalia Ziemkiewicz, de Época

O templo terá
46 metros 
O que a fé nem sempre consegue os arquitetos frequentemente obtêm: unem fiéis de todas as crenças ou gente de crença nenhuma em torno da beleza dos espaços de oração. As gárgulas típicas da arquitetura gótica da Catedral de Notre Dame, na França, e os 20 mil ladrilhos decorados com flores e formas abstratas da Mesquita Azul, na Turquia, atraem milhares de pessoas anualmente, sem distinção de credo.

Agora, um ateu confesso, o filósofo suíço Alain de Botton está decidido a aplicar os princípios arquitetônicos que tornam esses lugares especiais em favor daqueles que não têm fé. Botton quer construir locais de contemplação para quem não crê em divindade alguma -- templos ateus, para celebração da existência e da vida humana.

“Será um lugar para fugir da loucura do dia a dia, refletir sobre a própria vida com tranquilidade”, disse Botton em entrevista a Época. Esses espaços não terão sacerdotes ou mesmo púlpitos. Não abrigarão palestras, cultos ou reuniões de qualquer espécie. Não venerarão a ciência ou a racionalidade, diz Botton, muito menos a transcendência. Sua marca será a beleza de suas formas. Seu objetivo, causar prazer estético e celebrar valores intrinsecamente humanos, como a amizade, o amor e a esperança.

O projeto do tempo ateu já existe. Foi desenhado por dois jovens arquitetos britânicos, Thomas Greenal e Jordam Hodgson, sob o lema “Tempo da perspectiva” e apresentado no mais recente livro de Botton, Religião para Ateus. É uma torre negra de concreto de 46 metros de altura, o equivalente a 15 andares, oca e aberta no topo. Cada centímetro representa um dos 4,6 bilhões de anos de existência geológica da Terra.

Filósofo diz que objetivo é
criar sentimento contemplativo
e de admiração 

Dentro dela, os visitantes se encontraram no interior de um espaço vazio. Na parede, uma linha de ouro com 1 milímetros de espessura mostrará o tempo de existência da humanidade em relação à idade do Universo. Não haverá janelas ou paredes, apenas a luz entrando pela abertura no topo do edifício. No revestimento externo estará inscrito um código binário que faz referência ao formato da dupla hélice da molécula de DNA, base de toda vida.

“O objetivo é criar um sentimento contemplativo e de admiração”, afirma Greenal, um dos arquitetos. Botton diz que a ideia é fazer as pessoas se sentirem pequenas e frágeis, como já almejavam os arquitetos das catedrais medievais. “Os problemas parecerão menores e insignificantes”, afirma.

O princípio que norteou o desenho do tempo ateu é semelhante ao que baseia a construção dos mais tradicionais centros religiosos. “Nesse tipo de arquitetura, privilegia-se uma estética que ajude na reflexão e proporcione um sentimento de otimismo”, diz o arquiteto Ruy Khtake. Ele foi responsável pelo projeto do Santuário Mãe de Deus, em São Paulo, conhecido como igreja do padre Marcelo Rossi.

Para o tempo ateu sair do papel, falta muita coisa -- localização, recursos financeiros e disposição do autor da ideia. Em janeiro, Botton, que mora em Londres, deu várias entrevistas discutindo a estrutura, a localização e a maneira como pretendia financiar o projeto, a ser erguido no centro financeiro da cidade. A região, conhecida como City of London, abriga o prédio da Bolsa de Valores e a sede de grandes bancos e seguradoras – um local onde muitas pessoas, segundo Botton, perdem a perspectiva do que é importante na vida.

Os jornais londrinos The Guardian e The Daily Telegraph informaram que Botton já teria metade do milhão de libras (R$ 1,7 milhões) necessário para a obra, que começaria no final de 2013. Na conversa com Época, na semana passada, Botton garantiu que o templo de Londres ainda é apenas “uma ideia”. Entre uma postura e outra, ocorreu a reação pública ao seu projeto.

Ideia de Botton provocou a ira
do cientista Richard Dawkins e
do filósofo Daniel Dannet  

A ideia do templo provocou a ira de ateus como o cientista britânico Richard Dawkins e o filósofo americano Daniel Dennet. “Não precisamos de templos”, disse Dawkins. “Se é para gastar dinheiro, seria melhor aprimorar a educação laica e construir escolas que ensinem pensamento crítico”.

Outros críticos se manifestaram, e a polêmica cresceu, opondo Botton a um grupo de ateus organizado e atuante. Para eles, unir-se em comunidade é uma atitude tipicamente religiosa.

Grupos como o de Dawkins afirmam que as religiões são daninhas e prejudiciais, por incitar o fanatismo que causa violência e mortes, e que deveriam ser extintas. Essa linha agressiva do ateísmo ganhou força com os atentados de 11 de setembro nos Estados Unidos.

Botton quer incorporar
a parte boa da religião
Botton (foto) é muito menos radical. Ele critica esse ateísmo “destrutivo” por ignorar aspectos positivos da religião: o senso de comunidade, a ideia de que os laços que nos unem devem ser duradouros, a arquitetura, a música e, em última instância, a capacidade de aplacar as angústias humanas.

Sem abrir mão do ateísmo, Botton defende o que considera positivo na religião – e tenta incorporar a “parte boa” em sua forma de humanismo. Depois da proposta do templo, porém, ele foi obrigado a se defender inclusive da acusação de que tentava criar uma nova forma de religião, desta vez sem Deus.

Botton é conhecido por tratar com um ponto de vista original os temas da vida moderna – o trabalho, a educação, a ansiedade do dia a dia – e mostrar aspectos positivos que nos passam despercebidos. Foi isso que fez em 2008, ao fundar a Escola da Vida, instituição que ministra cursos sobre assuntos cotidianos. Ali se fala de relacionamentos, família, viagens e carreiras. O objetivo era cutucar o ensino formal e sugerir que os estudantes devem ser formados para a vida.

A ideia do templo tem a mesma natureza: estimular os ateus a perceber o que há de bom naquilo que abominam. E acolhê-los. “Há preconceito contra os ateus”, diz o sociólogo Antônio Flávio Pierucci, da Universidade de São Paulo. “É difícil sair do armário.”

Dawkins critica projeto de Botton: ‘Ateus não precisam de templos’.
janeiro de 2012

Fé e sagrado não são experiências próprias e exclusivas da religião.
por Sérgio Telles em janeiro de 2012 

Alain de Botton.    Ateísmo.

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