O dia das eleições acabou se revelando como o "dia dos porcos", escreve o sociólogo Demétrio Magnoli em sua coluna na Folha de S.Paulo publicada na sexta-feira (2). Para ele, os dois lados já venceram antes do resultado das urnas. Lulistas e bolsonaristas entraram num jogo em que tudo é permitido, até usar Deus como cabo eleitoral.
Magnoli coloca o caso brasileiro dentro de um movimento mundial de avanço do fervor religioso sobre a política. Lembra que, quando era jovem, mulheres andavam de minissaia em Cabul, Teerã não tinha polícia religiosa e nenhum republicano atribuía ao presidente dos Estados Unidos uma missão divina. Hoje, o Afeganistão, o Irã, Israel e a Washington de Donald Trump mostram o abismo para onde o Brasil pode deslizar.
O colunista recorre à história para lembrar quanto custou separar a fé do poder. Cita as guerras entre católicos e huguenotes na França, que mataram cerca de 3 milhões de pessoas. Lembra também o Edito de Nantes, de 1598, e as revoluções americana e francesa, que abriram caminho para a secularização do Estado. São conquistas valiosas, diz ele, mas frágeis.
No Brasil, Magnoli diz que os bolsonaristas começaram. Em 2022, Michelle Bolsonaro organizou sessões de oração no Palácio do Planalto para "purificar" um prédio que, segundo ela, tinha sido consagrado a demônios.
Agora os lulistas imitam os adversários e empatam "o jogo da infâmia". A campanha petista explora uma notícia já desmentida para atiçar uma guerra de religião. Lula, por sua vez, encena indignação com o chute na santa ocorrido há 31 anos.
O texto lembra que o Brasil é um Estado laico desde 1890. A Constituição de 1988 protege esse princípio com dois dispositivos que se completam: o artigo 19 proíbe alianças entre o Estado e as igrejas, e o artigo 5º garante a liberdade de crença. Para o autor, misturar fé e eleição é desrespeitar a Constituição.
Magnoli também critica as isenções fiscais das igrejas e os púlpitos subsidiados que viraram palanques. Critica ainda ministros do STF que, segundo ele, agem como cabos eleitorais de toga. André Mendonça, defensor da liberdade de expressão, agora pede censura judicial. Flávio Dino, que combate as fake news, invoca a liberdade de expressão e manda a Polícia Federal investigar supostos ataques a imagens religiosas.
A conclusão incomoda: o uso da religião na campanha deixou de ser exclusividade de um só lado.
Segue a íntegra da coluna.
O dia do voto deveria ser nosso, dos brasileiros. Será deles, dos porcos. Ganhe um ou outro, eles já triunfaram: lulistas e bolsonaristas decidiram que, no vale tudo, vale brincar com Deus.
Na minha juventude, mulheres passeavam de minissaia nas ruas de Cabul e não se imaginava uma polícia religiosa em Teerã. Nenhum republicano atribuía ao presidente dos EUA uma missão divina. Inexistia um partido relevante em Israel que, batizando-se Sionismo Religioso, clamava por limpeza étnica em nome do judaísmo. A explosão mundial do ardor religioso manifesta-se pela infiltração da fé no terreno da política. O Brasil corre o risco de deslizar para esse abismo, empurrado pelos porcos.
Na França, ao longo de 36 anos, a guerra entre católicos e huguenotes matou cerca de 3 milhões, um quinto da população total. O Edito de Nantes (1598), que encerrou o conflito e garantiu direitos ao que restava dos protestantes, ensaiou implantar no Ocidente o princípio da tolerância religiosa. A secularização do Estado chegaria com as revoluções americana e francesa, no século 18, e o conceito de laicidade estatal, apenas no outono do século 19. São bens preciosos, mas frágeis, como mostram Cabul, Teerã, Jerusalém e Washington.
Os porcos simulam fé e ardor, na busca por votos. Os bolsonaristas começaram tudo, com as sessões de oração promovidas por Michelle no Planalto, em 2022. A ideia, segundo palavras dela, era purificar um palácio "consagrado a demônios" em governos anteriores. Hoje, diante de uma paisagem eleitoral perigosa, os lulistas seguem o rastro de seus rivais, empatando o jogo da infâmia. Marcham com a mentira numa mão e a imagem de Nossa Senhora na outra.
O Brasil tornou-se um Estado laico em 1890. O princípio foi inscrito na Constituição de 1988 sob forma dupla e complementar: a proibição de alianças entre Estado e igrejas (artigo 19) e o livre exercício de crença religiosa (artigo 5).
Os constituintes sabiam que o único alicerce sólido da liberdade de religião é a separação entre o poder estatal, público, e as igrejas, entidades privadas. Brincando com Deus, misturando fé com política, os porcos chutam a Constituição.
Não é de agora. As igrejas obtiveram as mais extensas isenções tributárias, fruto de favores de governos e parlamentares às custas do dinheiro de todos. Bispos de negócios converteram seus púlpitos subsidiados em palanques eleitorais. Mas o jogo alcança um ápice quando a campanha petista agarra-se a uma notícia desmentida para atiçar uma guerra de religião. Lula declara não saber se a notícia falsa é verdadeira e, memorioso, encena santa indignação contra um chute na santa ocorrido 31 anos atrás, enquanto sua guerrilha digital assegura que a mentira veicula a verdade.
Já entraram em campo cabos eleitorais concorrentes, disfarçados atrás das togas ilusórias de ministros do STF. Numa ponta, André Mendonça, paladino da liberdade de expressão, exige censura judicial. Na ponta oposta, Flávio Dino, cavaleiro andante da censura às fake news, clama por respeito à liberdade de expressão. De quebra, em linha com sugestão de Lula, manda a PF investigar indícios de ataques a imagens religiosas. Sob tortura, a mentira tem que ser transformada em verdade.
Cabul, Teerã, Jerusalém, a Washington de Trump? Os porcos não se importam: querem o teu voto.
Comentários
Postar um comentário