O budismo nunca tratou a meditação como prática segura para todos — há milênios acumula diagnósticos e remédios para quando ela dá errado. O Ocidente é que preferiu não ouvir. Epecialistas acham que a meditação terapêutica deveria carregar um rótulo de advertência, como qualquer outra intervenção médica
Pierce Salguero
professor de história asiática e humanidades da saúde, Penn State
Pierce Salguero
professor de história asiática e humanidades da saúde, Penn State
The Conversation
plataforma de informação produzida por acadêmicos e jornalistas
Quando descobri, em 2020, que psicólogos estavam começando a documentar o mesmo fenômeno, comecei a examinar de forma mais sistemática como os textos budistas tratam dessa questão.
Passei a coordenar uma equipe de colegas tradutores de páli, sânscrito, chinês, tibetano, japonês e outras línguas para reunir fontes de todo o mundo budista, que publicamos em um livro de 2026, "Meditation Sickness: A Sourcebook on the Dangers of Buddhist Practice" (algo como "Doença da Meditação: um livro de fontes sobre os perigos da prática budista").
O estudo deles, intitulado "The Varieties of Contemplative Experience" ("As Variedades da Experiência Contemplativa"), envolveu entrevistas em profundidade com quase 100 praticantes e professores budistas ocidentais que enfrentaram dificuldades — incluindo medo, ansiedade, pânico, paranoia e outras experiências negativas — ao se engajarem em diferentes tradições de prática meditativa.
Outros estudos relataram achados semelhantes, sugerindo que entre 3% e 65% dos praticantes podem apresentar efeitos adversos decorrentes do mindfulness ou de outras formas de prática contemplativa.
Textos budistas há muito descrevem desafios da meditação
Enquanto isso, as tradições budistas asiáticas vêm discutindo os potenciais perigos da meditação há milênios. Um nome comum para os desafios relacionados à meditação no Leste Asiático é "doença da meditação" — "chanbing" em chinês, ou "zenbyō" em japonês.
Como equilibrar os benefícios e os perigos do mindfulness e de outras meditações é algo que cada cultura e comunidade precisa resolver por conta própria. É mais um aspecto de como o budismo precisa ser continuamente traduzido para o nosso próprio tempo e lugar, e adaptado para harmonizar-se com nossas próprias necessidades e expectativas culturais.
No Ocidente, muitos professores de meditação e pesquisadores estão pedindo consentimento informado, melhor triagem e treinamento para que professores e clínicos reconheçam quando a prática tem potencial de se tornar perigosa.
plataforma de informação produzida por acadêmicos e jornalistas
Como estudioso da "medicina budista", pesquiso as conexões entre o budismo e o bem-estar desde o final da década de 1990.
Ao longo dessa pesquisa, eu encontrava periodicamente fontes que afirmavam que a meditação poderia, às vezes, ter efeitos inesperados ou adversos à saúde.
Quando descobri, em 2020, que psicólogos estavam começando a documentar o mesmo fenômeno, comecei a examinar de forma mais sistemática como os textos budistas tratam dessa questão.
Passei a coordenar uma equipe de colegas tradutores de páli, sânscrito, chinês, tibetano, japonês e outras línguas para reunir fontes de todo o mundo budista, que publicamos em um livro de 2026, "Meditation Sickness: A Sourcebook on the Dangers of Buddhist Practice" (algo como "Doença da Meditação: um livro de fontes sobre os perigos da prática budista").
Incluímos escrituras e documentos históricos, mas também autobiografias de pessoas que sofreram com o problema e orientações de professores contemporâneos de toda a Ásia.
O que emerge dessas coletâneas é a certeza de que o budismo nunca entendeu a meditação como algo isento de perigos. No entanto, as fontes também contêm conselhos potencialmente valiosos sobre o que fazer quando a meditação dá errado.
Cientistas estão reavaliando a meditação
Décadas de pesquisa científica estabeleceram os benefícios à saúde do mindfulness (prática de focar a mente de forma consciente e sem julgamentos no momento presente) e de outras práticas de meditação, tornando-as uma presença onipresente na indústria global do bem-estar atual.
O que emerge dessas coletâneas é a certeza de que o budismo nunca entendeu a meditação como algo isento de perigos. No entanto, as fontes também contêm conselhos potencialmente valiosos sobre o que fazer quando a meditação dá errado.
Cientistas estão reavaliando a meditação
Décadas de pesquisa científica estabeleceram os benefícios à saúde do mindfulness (prática de focar a mente de forma consciente e sem julgamentos no momento presente) e de outras práticas de meditação, tornando-as uma presença onipresente na indústria global do bem-estar atual.
Mas alguns pesquisadores vêm questionando se a meditação é necessariamente segura para todos.
A partir de 2017, a psicóloga Willoughby Britton, o pesquisador de religião Jared Lindahl e sua equipe na Universidade Brown documentaram casos em que a meditação causou dano em vez de bem-estar.
O estudo deles, intitulado "The Varieties of Contemplative Experience" ("As Variedades da Experiência Contemplativa"), envolveu entrevistas em profundidade com quase 100 praticantes e professores budistas ocidentais que enfrentaram dificuldades — incluindo medo, ansiedade, pânico, paranoia e outras experiências negativas — ao se engajarem em diferentes tradições de prática meditativa.
Outros estudos relataram achados semelhantes, sugerindo que entre 3% e 65% dos praticantes podem apresentar efeitos adversos decorrentes do mindfulness ou de outras formas de prática contemplativa.
Textos budistas há muito descrevem desafios da meditação
Enquanto isso, as tradições budistas asiáticas vêm discutindo os potenciais perigos da meditação há milênios. Um nome comum para os desafios relacionados à meditação no Leste Asiático é "doença da meditação" — "chanbing" em chinês, ou "zenbyō" em japonês.
Também costumam ser diagnosticados como distúrbios de "vento" — "loong" em tibetano, "lom" em tailandês.
Alguns textos históricos descrevem os próprios desafios do Buda com a meditação. Em um texto páli comumente datado dos primeiros séculos da era comum, chamado Grande Discurso a Saccaka, por exemplo, o Buda relata ter sentido dores de cabeça e outros sintomas em decorrência de concentração excessiva.
Muitas outras fontes descrevem experiências semelhantes acontecendo com outras pessoas. "Secret Essentials for Curing Meditation Sickness" ("Essenciais Secretos para Curar a Doença da Meditação"), uma escritura do século V do reino de Khotan, na Rota da Seda, narra como meditadores experientes "enlouqueceram" ao serem sobressaltados por sons altos enquanto estavam em meditação profunda.
Duas grandes escrituras — a "Perfeição da Sabedoria em Oito Mil Linhas", em sânscrito, do primeiro ou segundo século da era comum, e o Sutra Shurangama, em chinês, do século VIII — relatam como praticantes espirituais avançados podem estar vulneráveis a ataques de "demônios".
Alguns textos históricos descrevem os próprios desafios do Buda com a meditação. Em um texto páli comumente datado dos primeiros séculos da era comum, chamado Grande Discurso a Saccaka, por exemplo, o Buda relata ter sentido dores de cabeça e outros sintomas em decorrência de concentração excessiva.
Muitas outras fontes descrevem experiências semelhantes acontecendo com outras pessoas. "Secret Essentials for Curing Meditation Sickness" ("Essenciais Secretos para Curar a Doença da Meditação"), uma escritura do século V do reino de Khotan, na Rota da Seda, narra como meditadores experientes "enlouqueceram" ao serem sobressaltados por sons altos enquanto estavam em meditação profunda.
Duas grandes escrituras — a "Perfeição da Sabedoria em Oito Mil Linhas", em sânscrito, do primeiro ou segundo século da era comum, e o Sutra Shurangama, em chinês, do século VIII — relatam como praticantes espirituais avançados podem estar vulneráveis a ataques de "demônios".
Se esses demônios devem ser entendidos como entidades externas ou como manifestações psicológicas é uma questão de interpretação dentro das tradições budistas.
Uma história do Samyukta Agama, datada dos primeiros séculos da era comum e disponível em múltiplas línguas, chega a relatar monges que cometeram suicídio em massa após praticar uma meditação ensinada pelo próprio Buda, levando-o a modificar suas instruções.
O que fazer quando as coisas dão errado
Uma conclusão clara dessas perspectivas budistas asiáticas sobre a meditação é que os efeitos colaterais não são culpa de ninguém: são riscos reconhecidos de um conjunto poderoso de práticas transformadoras. Mas também são administráveis.
Uma história do Samyukta Agama, datada dos primeiros séculos da era comum e disponível em múltiplas línguas, chega a relatar monges que cometeram suicídio em massa após praticar uma meditação ensinada pelo próprio Buda, levando-o a modificar suas instruções.
O que fazer quando as coisas dão errado
Uma conclusão clara dessas perspectivas budistas asiáticas sobre a meditação é que os efeitos colaterais não são culpa de ninguém: são riscos reconhecidos de um conjunto poderoso de práticas transformadoras. Mas também são administráveis.
Embora as fontes budistas apontem os perigos potenciais da meditação, muitas também descrevem o que fazer quando as coisas dão errado.
Mestres de meditação e médicos de toda a Ásia dedicaram atenção substancial ao diagnóstico e tratamento de doenças relacionadas à prática, com diferentes tipos de meditações compensatórias, visualização, cânticos, acupuntura, ervas e outros remédios.
Mestres de meditação e médicos de toda a Ásia dedicaram atenção substancial ao diagnóstico e tratamento de doenças relacionadas à prática, com diferentes tipos de meditações compensatórias, visualização, cânticos, acupuntura, ervas e outros remédios.
Um tipo comum de tratamento envolve o "aterramento" (grounding), ou seja, redirecionar a atenção para o baixo-ventre, os pés, ou um ponto profundo no solo abaixo do corpo.
Outro tipo de aterramento envolve visualizar energia descendo pelo corpo, da cabeça aos pés. Um monge japonês do século XVII chamado Hakuin Ekaku, por exemplo, descreve a visualização de manteiga derretendo no topo da cabeça e escorrendo lentamente para baixo, relaxando tudo o que toca até chegar ao chão.
Se essa sabedoria acumulada sobre como lidar com os efeitos colaterais da prática budista pode ser traduzida em formas úteis para praticantes contemporâneos continua sendo uma questão em aberto para o estudo acadêmico.
Outro tipo de aterramento envolve visualizar energia descendo pelo corpo, da cabeça aos pés. Um monge japonês do século XVII chamado Hakuin Ekaku, por exemplo, descreve a visualização de manteiga derretendo no topo da cabeça e escorrendo lentamente para baixo, relaxando tudo o que toca até chegar ao chão.
Se essa sabedoria acumulada sobre como lidar com os efeitos colaterais da prática budista pode ser traduzida em formas úteis para praticantes contemporâneos continua sendo uma questão em aberto para o estudo acadêmico.
Responder a essa pergunta é uma prioridade do Contemplative Challenges Collective (Coletivo de Desafios Contemplativos), uma iniciativa de pesquisa que lancei no início deste ano.
Consentimento informado para a meditação?
As tradições budistas asiáticas também enfatizam que é fundamental distinguir entre os desafios normais e saudáveis de fazer algo transformador, por um lado, e uma verdadeira crise médica, por outro.
Consentimento informado para a meditação?
As tradições budistas asiáticas também enfatizam que é fundamental distinguir entre os desafios normais e saudáveis de fazer algo transformador, por um lado, e uma verdadeira crise médica, por outro.
De fato, os textos budistas dizem que as pessoas devem esperar que surjam desafios como parte do processo de desenvolvimento espiritual.
Navegar por território psicológico difícil — especialmente o confronto com os próprios traumas e medos centrais — pode ser bastante difícil e, ao mesmo tempo, tremendamente recompensador.
Minha pesquisa mostra que as culturas budistas divergem quanto ao que cruza a linha entre desafios esperados e condições mentais e físicas debilitantes.
Navegar por território psicológico difícil — especialmente o confronto com os próprios traumas e medos centrais — pode ser bastante difícil e, ao mesmo tempo, tremendamente recompensador.
Minha pesquisa mostra que as culturas budistas divergem quanto ao que cruza a linha entre desafios esperados e condições mentais e físicas debilitantes.
O que constitui uma crise de saúde na Índia antiga ou na China medieval é diferente do que constitui no Japão do século XVIII ou no Tibete do século XXI.
O que é tolerável em uma comunidade de monásticos dedicados à prática contemplativa profunda será diferente do que é razoável para pessoas comuns interessadas em redução do estresse.
Possíveis efeitos adversos da meditação
Despersonalização/desrealização: sensação de estranhamento do próprio corpo ou da realidade em retiros longos.
Crises de ansiedade e pânico: o silêncio contínuo eleva a ruminação mental e o estado de alerta.
Reativação de traumas: o isolamento estimula lembranças difíceis sem apoio profissional imediato.
Surtos psicóticos ou maníacos: eventos intensivos geram crises em pessoas vulneráveis ao transtorno bipolar.
A chamada "noite escura": fase de vazio e sofrimento relatada após treinos meditativos avançados.
Como equilibrar os benefícios e os perigos do mindfulness e de outras meditações é algo que cada cultura e comunidade precisa resolver por conta própria. É mais um aspecto de como o budismo precisa ser continuamente traduzido para o nosso próprio tempo e lugar, e adaptado para harmonizar-se com nossas próprias necessidades e expectativas culturais.
No Ocidente, muitos professores de meditação e pesquisadores estão pedindo consentimento informado, melhor triagem e treinamento para que professores e clínicos reconheçam quando a prática tem potencial de se tornar perigosa.
Alguns especialistas acham que a meditação terapêutica deveria carregar um rótulo de advertência, como qualquer outra intervenção médica que seja, ao mesmo tempo, uma cura potencial e um risco potencial.
Promotores ocidentais da meditação, praticantes, desenvolvedores de aplicativos e estudiosos por igual há muito ignoraram, descartaram ou simplesmente desconheciam os potenciais efeitos negativos. Mas o fato inconveniente de que a meditação nem sempre é benéfica já é conhecido há muito tempo pela tradição budista, que tem muito a dizer sobre esse tema — e que pode ser de grande ajuda.
Promotores ocidentais da meditação, praticantes, desenvolvedores de aplicativos e estudiosos por igual há muito ignoraram, descartaram ou simplesmente desconheciam os potenciais efeitos negativos. Mas o fato inconveniente de que a meditação nem sempre é benéfica já é conhecido há muito tempo pela tradição budista, que tem muito a dizer sobre esse tema — e que pode ser de grande ajuda.
Comentários
Postar um comentário