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Ateísmo triplicou no Brasil entre 2010 e 2022, mostra o Censo

No total, ateus e agnósticos são 2,58 milhões. Os "sem religião" são 6,4 milhões de brasileiros, ou seja, 1 em cada 12 habitantes do país não professa crença alguma


O ateísmo no Brasil triplicou entre 2010 e 2022. Os agnósticos cresceram sete vezes no período. Os dados, inéditos, integram os microdados do Censo 2022, divulgados pelo IBGE na segunda-feira.



O país tem 1,7 milhão de ateus — 1% da população com 10 anos ou mais — e 881 mil agnósticos (0,5%).

São agnósticos aqueles que consideram impossível comprovar a existência ou inexistência de Deus ou de forças sobrenaturais, mantendo postura neutra sobre o assunto.

Em 2010, o número de ateus era significativamente menor. O crescimento é documentado no portal Paulopes, que acompanha há mais de uma década o avanço do ateísmo no Brasil.

Informações sobre a demografia do ateísmo estão disponíveis também na Wikipedia, em verbete dedicado ao tema.

Ateus e agnósticos somam 2,58 milhões de pessoas. Somados ao contingente dos "sem religião" — 16,4 milhões de brasileiros —, 1 em cada 12 habitantes do país não professa crença alguma.

Nem todos os "sem religião" duvidam da existência de Deus. Muitos simplesmente rejeitam organizações e instituições religiosas, sem por isso abraçar o ateísmo ou o agnosticismo como posição declarada.

O IBGE ainda identificou 276 mil pessoas que se declaram "espiritualizadas" e 167 mil adeptos de tradições esotéricas — categorias tratadas à parte dos grupos sem religião e dos ateístas declarados.

O crescimento do ateísmo e do agnosticismo ocorre num país ainda majoritariamente cristão. Os católicos somam 100,6 milhões — 57% da população com 10 anos ou mais —, o menor patamar já registrado.

A queda é tendência de décadas. Em 2000, os católicos eram 74,4% dos brasileiros; em 2010, 65,5%; hoje, 57%. O catolicismo mantém com folga o posto de maior grupo religioso do país.

Em 20 municípios, mais de 95% da população professa a fé católica. No Censo de 1872, os católicos representavam 99,7% — num contexto em que escravizados e indígenas tinham pouca margem para declarar outra crença.

Na análise das vertentes católicas, os apostólicos romanos correspondem a quase 100% do total. Os ortodoxos somam 21 mil adeptos, em tradições distintas como a russa e a grega.

Os evangélicos formam o segundo maior bloco religioso, com 26,9% — 47,4 milhões de pessoas. O crescimento foi real, porém mais lento: entre 2010 e 2022, o segmento avançou 35,3%.

No intervalo 2000–2010, o crescimento havia sido de 69,2%, enquanto a população total expandiu 18,3%. Hoje os evangélicos são maioria em 58 municípios brasileiros.

Na faixa de 10 a 14 anos, os evangélicos representam 31,6% — contra 52% de católicos. Entre quem tem mais de 80 anos, as proporções se invertem: 19% e 72%, respectivamente.

Dentro do segmento, o maior subgrupo é o dos "não determinados" — pessoas que se declararam genericamente como evangélicas ou crentes, sem apontar denominação específica.

Esse grupo representa 15,6% da população com 10 anos ou mais — proporção que mais do que triplicou desde 2010, quando era 4,8%.

Os pentecostais — das Assembleias de Deus à Igreja Universal do Reino de Deus — somam 14,3 milhões (8,1%). Os evangélicos de missão, como presbiterianos e metodistas, chegam a 5,6 milhões (3,2%).

A leitura dos dados evangélicos exige cautela. Em 2010, o IBGE orientava os recenseadores a não aceitar termos genéricos como "crente" ou "evangélica", pedindo a denominação específica.

A instrução foi suprimida no Censo 2022. Sem o alerta, os recenseadores aceitaram declarações vagas, inflando a categoria "não determinada" em relação ao levantamento anterior.

O efeito: pentecostais aparecem com fatia menor do que realmente ocupam na malha evangélica, segundo pesquisas amostrais realizadas ao longo dos anos.

Para o demógrafo José Eustáquio Alves, pesquisador aposentado do IBGE, o levantamento de 2022 "teve muitos problemas na sua aplicação".


A pandemia adiou o censo, previsto para 2020. A falta de recursos, negada pelo governo Bolsonaro, e a coincidência com as eleições presidenciais de 2022 — "um pleito muito polarizado" — comprometeram a coleta.

O pesquisador aponta "o grau de violência e as áreas dominadas pelo tráfico e pelas milícias" como fator que impediu o acesso a domicílios de baixa renda em certas regiões do país.

Para a cientista política Ana Carolina Evangelista, do Iser (Instituto de Estudos da Religião), os microdados revelam como "grandes grupos religiosos escondem diferenças internas importantes".

Evangelista destaca a necessidade de atenção à subdivisão evangélica, sobretudo para compreender a tendência dos "evangélicos sem igreja" — os desigrejados — dentro dos números.

O próximo Censo, previsto para o início da próxima década, deve indicar se há migração de fiéis ou se o abandono da religião institucionalizada — especialmente entre os jovens — continua avançando.

Entre as religiões de matriz africana, a umbanda lidera com 1,4 milhão de adeptos (0,8%), seguida do candomblé com 448,5 mil (0,3%). O conjunto triplicou de presença nos últimos 12 anos.

O espiritismo recuou: era 2,2% em 2010 e hoje representa 1,8%, com 3,2 milhões de seguidores. O levantamento registra ainda 197 mil budistas, 100 mil judeus, 41,2 mil muçulmanos e 6,7 mil hindus.

Os adeptos do Santo Daime e religiões afins somam 14 mil. Outros 132 mil brasileiros declaram múltiplo pertencimento — duas ou mais crenças simultâneas.

O bloco cristão como um todo — católicos, evangélicos, testemunhas de Jeová (1,2 milhão), mórmons (148 mil) e outras denominações — representa 86,9% dos recenseados.

O Brasil segue majoritariamente cristão. O Censo 2022 documenta, porém, que as fronteiras da crença nunca foram tão movediças.

Com informação do Censo 2022, microdados divulgados em 1.º/9/2026; Paulopes; Wikipedia — Demografia do ateísmo; Folha de S.Paulo.


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