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Maioria apoia aborto legal para meninas estupradas, diz pesquisa

Pesquisa Ipsos-Ipec ouviu 1.200 brasileiros em março de 2026: 64% defendem que meninas estupradas de até 14 anos possam interromper a gravidez em hospital público — apenas 16% são contra

Uma pesquisa inédita mostra que 64% dos brasileiros defendem que meninas com menos de 14 anos grávidas por estupro possam interromper a gestação de forma legal e segura em hospital público. Apenas 16% são contra.

O levantamento foi feito pelo Ipsos-Ipec a pedido do Instituto Patrícia Galvão, em parceria com a campanha Criança Não é Mãe.

Foram ouvidas 1.200 pessoas em março de 2026, exclusivamente pela internet.


Dos 87.545
casos de
estupro
em 2024,
60% das
vítimas
eram
meninas
com menos
de 14 anos,
segundo o
Fórum
Brasileiro
de Segurança
Pública.
Somadas
adolescentes
de 14 a 17
anos, 69,7%
tinham menos
de 18

Os dados revelam que os entrevistados reconhecem os efeitos da violência sexual sobre crianças e apoiam, de forma consistente, os direitos que a legislação já garante às vítimas de estupro.

A maioria dos entrevistados defende que as vítimas tenham acesso a assistência psicológica imediata (89%) e a informações sobre como evitar infecções sexualmente transmissíveis e gravidez indesejada (72%).

Apesar desse apoio, levantamento da ONG Plan International mostrou que apenas metade das meninas que engravidaram antes dos 14 anos após estupro recebeu informações sobre direito ao aborto legal.

O aborto é percebido pela maioria como questão de saúde pública: 50% indicaram que o tema deve ser debatido por órgãos da área da saúde. Instituições religiosas foram citadas por apenas 3%.

"Espero que a nossa pesquisa contribua para desconstruir falsas percepções e mostrar, de forma clara, que a população apoia esse direito", diz Letícia Ueda Vella, do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde.

No Congresso, porém, a movimentação tem seguido na direção oposta. Em junho, o Senado aprovou projeto que derrubou resolução do Conanda com diretrizes sobre atendimento a crianças vítimas de violência sexual.

A pesquisa testou cenários hipotéticos. Diante de uma criança de 11 anos grávida por estupro com o caso na Justiça, 56% discordaram da atitude de uma juíza fictícia que tentou convencê-la a manter a gravidez.

Em outro cenário, 40% apoiariam o aborto legal se uma menina de 13 anos da família engravidasse de um adulto. O índice sobe para 51% entre jovens de 16 a 24 anos, e cai para 32% entre evangélicos.

Num terceiro cenário, 56% concordaram com a aplicação da lei que permite interromper a gestação no caso de filha com anencefalia fetal pressionada por discurso religioso a não abortar.

Os entrevistados subestimam o problema: apenas 35% identificaram meninas de até 14 anos como as principais vítimas de estupro. 

A maioria apontou, equivocadamente, adolescentes de 14 a 17 ou mulheres adultas.

No Brasil, 16.520 meninas engravidam por ano em média, segundo o Observatório Criança Não é Mãe. Entre os entrevistados, 39% não souberam estimar esse número, e a maioria citou valores muito abaixo da realidade.

Menos de 5% dessas meninas conseguem acessar o aborto legal anualmente, afirma o observatório. A lacuna entre apoio público e acesso real ao direito legal é o que a campanha busca expor.

"Ampliar a consciência sobre a situação ampliaria o apoio tanto ao acolhimento das vítimas como a políticas correlatas, como educação sexual", afirma Laura Molinari, codiretora do Nem Presa Nem Morta.

Com informação do Instituto Patrícia Galvão / Ipsos-Ipec / Fórum Brasileiro de Segurança Pública / Plan International Brasil.

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