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Metade de peixes analisados no litoral fluminense apresenta mercúrio acima do limite seguro

Os pesquisadores coletaram 30 indivíduos de peixes no Mercado Municipal de Peixe de Cabo Frio, contemplando capturas em diferentes épocas do ano

Um artigo publicado na revista Neotropical Ichthyology na sexta (15) mostra que 50% das amostras do peixe bonito-pintado (Euthynnus alletteratus) comercializadas em Cabo Frio, no litoral do Rio de Janeiro, apresentaram concentrações de mercúrio acima do permitido. 


Exemplar de
bonito-pintado
(Euthynnus
alletteratus
)
analisado na
pesquisa

Um exemplar atingiu concentração de até 1,980 miligramas por quilo, quase o dobro do limite máximo estabelecido pelas legislações brasileira e internacional para peixes carnívoros, que é de 1 miligrama por quilo.

O estudo do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Fluminense (IFF), Campus Cabo Frio, em colaboração com pesquisadores das universidades do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Federal Fluminense (UFF) e do Instituto de Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira (IEAPM), analisou o tecido muscular de peixes capturados na região. 

O objetivo era determinar as concentrações de mercúrio total (HgT) no músculo de espécimes de bonito-pintado, comparar as concentrações entre machos e fêmeas, além de verificar se essas concentrações estavam em conformidade com os limites de segurança alimentar. 

Os achados são preocupantes quando contextualizados com estudos similares, pois as concentrações encontradas no bonito-pintado, um atum de médio porte, superam as de espécies de atuns muito maiores analisadas em estudos anteriores.

Quanto à origem do metal, não há indícios de contaminação ambiental histórica ou fontes industriais diretas nas cidades de Cabo Frio e Arraial do Cabo.

Os autores salientam que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA, na sigla em inglês), a elevada contaminação de mercúrio em espécies de atuns é um indicativo da ampla e elevada poluição global desse elemento nos oceanos.

Peixes predadores que ocupam níveis superiores na cadeia alimentarpossuem mercúrio em concentrações elevadas no organismo, explicam os cientistas. Isso ocorre devido à capacidade desse elemento biomagnificar nesses animais — ou seja, a concentração de mercúrio aumenta através da ingestão de organismos menores por organismos maiores.

“A principal via de absorção de mercúrio (Hg) em vertebrados marinhos é através da alimentação, que juntamente com a baixa taxa de excreção desses animais, leva ao aumento das concentrações do Hg ao longo da cadeia trófica”, observam.

Um estudo prévio em Arraial do Cabo já havia detectado a presença de mercúrio em diversos organismos de diferentes níveis da cadeia alimentar. 

Para os pesquisadores, isso evidencia a necessidade de vigilância constante desse metal em áreas de ressurgência – em que as águas frias e profundas sobrem para a parte mais quente e superficial do oceano, estimulado a circulação de nutrientes. 

Juntamente com as áreas costeiras marinhas, elas possuem um importante papel econômico, sendo responsáveis por 98% da produção pesqueira mundial.

Os dados fornecem base científica para que agências reguladoras revisem os limites de tolerância para contaminantes como o mercúrio e implementem diretrizes de consumo mais rígidas, especialmente para grupos vulneráveis, como gestantes e crianças.

Os autores reforçam que programas de monitoramento de mercúrio são ferramentas essenciais para reduzir os riscos associados ao consumo de peixes com esse contaminante e garantir a segurança alimentar da população local.



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