Pular para o conteúdo principal

Líder neonazista da Escandinávia vive em liberdade no Brasil

Vincent Weidlich chegou a ser preso por veiculação de conteúdos de ódio e planos terroristas, mas foi solto


Paulo Nascimento
jornalista

Agência Pública
jornalismo investigativo sem fins lucrativos


Criar uma colônia de supremacistas brancos e nazistas em Santa Catarina e, a partir de uma rede online, instigar ataques terroristas, tendo como alvos judeus e negros. 

Estes eram os objetivos de Vincent Alexander Pacheco Weidlich. Filho de mãe brasileira e pai alemão, nascido nos Estados Unidos, o homem de 36 anos foi preso pela Polícia Federal em Blumenau (SC), no fim de 2024, e condenado, em setembro de 2025, pela Justiça Federal, sob a acusação de terrorismo e incitação ao genocídio por meio da veiculação de material relacionado ao nazismo e ao discurso de ódio. Mas, menos de um ano depois, foi solto e segue em liberdade, em São Paulo.


Weidlich
operava ao
menos dois
perfis no
TikTok para
divulgar seus
planos de
criar a colônia
neonazista e
cooptar
membros
para grupos
no Signal e
no Telegram.

  
Naquele ano, a partir de uma denúncia no TikTok, a Polícia Federal interceptou publicações na rede social e grupos nas plataformas de mensagem Telegram e Signal em que ele convocava atos terroristas para o dia 16 de outubro – mesma data em que Adolf Hitler faz seu primeiro discurso público em uma reunião política e em que dez dos principais líderes nazistas foram executados após os Julgamentos de Nuremberg.

De acordo com os documentos processuais aos quais a Agência Pública teve acesso, os alvos dos atentados convocados por Weidlich seriam grandes bancos, corporações de mídia e diversas empresas, além de sinagogas e mesquitas, “com vistas a propagar terror social e generalizado”, conforme destacou um dos documentos do processo judicial. 

Tudo isso teria como pano de fundo uma suposta revolução neonazista. “Vamos fazer deste um dia inesquecível”, afirmava ele nos grupos de mensagem.

Os grupos mantidos pelo neonazista reuniam pelo menos 140 pessoas de vários estados brasileiros e até de outros países, como Alemanha, Suécia, Rússia e Estados Unidos. Ele se apresentava como um facilitador, oferecendo meios para aquisição de armas e também arquivos ensinando como fazer bombas. 

Os dados levantados pela polícia apontam conexões diretas de números de celular e de IPs vinculados a Weidlich com a criação de ao menos dois perfis no TikTok, entre agosto e setembro de 2024, em que ele publicava supostas receitas de um possível explosivo caseiro com a mistura de diversos produtos químicos – um dos números cadastrados estava registrado justamente no endereço que ele apresentou à Justiça Federal em 2023 como sua residência, para justificar seu pedido de nacionalidade brasileira.

Um dos grupos, no Telegram, segundo o processo, era intitulado “Black Sun Rising Militia”. O Sol Negro (Black Sun) é um símbolo frequentemente associado ao movimento neonazista e ornava a sede da SS (Schutzstaffel/Esquadrão de Proteção), organização paramilitar e polícia política do regime nazista. Todos os grupos foram extintos após a prisão dele, segundo a polícia.

A PF fez buscas em um endereço ligado a Weidlich em São Paulo e encontrou uma máscara de gás, além de diversos materiais químicos que, de acordo com as investigações, poderiam ser utilizados para fazer bombas.

Segundo os documentos, após a detenção em Santa Catarina, Weidlich passou pouco mais de um ano recolhido, entre um Centro de Detenção Prisional e o Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico Doutor Arnaldo Amado Ferreira, em Taubaté.

Em 5 de fevereiro deste ano, ele foi liberado pela Justiça de São Paulo, após cumprir período de internação em um hospital psiquiátrico. 

“Em outras palavras, embora tenha cometido o crime, a falta de culpabilidade exclui a reprovabilidade da conduta”, registrou o juiz federal Marcelo Duarte da Silva. 

No dia 20 de fevereiro, já em liberdade, ele requisitou liberação de viagem para deixar o Brasil. Além do passaporte alemão, Weidlich também tem documentos norte-americanos e, desde 2023, a cidadania brasileira, que foi concedida também pela Justiça Federal.

 
Por que isso importa?

 
Weidlich mantinha grupos e perfis em plataformas como Signal e TikTok, com participantes de vários estados brasileiros e de outros países, onde convocava atos terroristas em bancos, sinagogas e mesquitas.

Apontado como um dos principais articuladores do movimento neonazista da Escandinávia, ele foi preso em Blumenau (SC), mas solto pouco tempo depois por alegação de insanidade mental. Agora, vive em São Paulo, onde aguarda liberação para sair do Brasil.

Colônia supremacista

No dia 21 de fevereiro de 2024, Weidlich lançou a seguinte proposta em um grupo do Telegram: “E se começarmos uma espécie de cidade nossa, como conseguir empregos/comprar terras/casas em uma cidade específica que já existe? Eu tive uma ideia parecida antes de começar uma micronação dentro da Noruega, mas isso não funcionou por causa dos ‘judeus’, pelo menos por enquanto. E Blumenau no Brasil?”. 

A ideia seria direcionada a “ultratradicionalistas, nacional-socialistas, nórdicos, germânicos e eslavos do oeste” – em suma, códigos para supremacistas brancos e neonazistas.

No Google Maps, um perfil vinculado a ele chegou a criar um local no bairro Velha, em Blumenau, que seria uma espécie de ponto de organização do projeto da colônia supremacista, com a oferta de serviços de aquisição de visto de trabalho e investimento imobiliário. Poucos dias antes de ser preso pela Polícia Federal, Weidlich informava nas redes sociais que estava abandonando os planos de Blumenau por um local na Rússia, nas imediações de Moscou, segundo as investigações.

A mensagem de “boas-vindas” do grupo no Telegram era direta: “Recém-chegados. O objetivo de nossa milícia é matar todos os judeus do mundo, enviar todos os negros e peles de merda de volta para onde vieram (ou matá-los se eles se recusarem). O caminho para o nosso objetivo inclui aumentar nossos números e nos armar com fogo, bombas, balas, etc., e obter mais exposição por meio do ativismo comunitário e clubes ativos, outros grupos nacional-socialistas e muito mais. Também estaremos intervindo para preencher os vácuos de poder que se abrirão em muitas de nossas nações, quando os governos entrarem em colapso”.

Aparentemente temeroso de uma exposição por meio do Telegram e do Signal, Weidlich chegou a montar um grupo menor, com cerca de 40 membros, intitulado “Pátria do Passado”, no Signal.

Nele estaria o núcleo principal da rede neonazista, que seria formado por empresários e por lideranças do partido “A Pátria”, agremiação alemã de extrema direita tida como a sucessora do partido nazista, apontam os documentos do processo. 

O objetivo do grupo não seria ações terroristas, mas sim a criação da colônia “ariana” no sul do Brasil. Todo o plano de criação da comunidade, com 140 páginas, segue disponível on-line na plataforma Weebly, sediada nos EUA.

Conexões brasileiras

A primeira passagem de Weidlich no Brasil foi em 2007. Aqui, ele fez trabalhos como DJ e conseguiu o registro do seu CPF. No ano anterior, a mãe dele estabeleceu negócios e residência no Rio Grande do Norte. A empresa São Jorge Empreendimentos teve sede inicial em uma residência de alto padrão nos arredores do campus central da Universidade Federal do RN.

Ele viveu na Inglaterra e em Kongsberg, na Noruega, onde passou cerca de dois anos. Uma investigação conduzida pela jornalista sueca My Vingren, publicada em 2023, aponta que ele mudou-se para a cidade justamente pela presença de uma importante empresa de armas e que tentou abordar diversos membros da companhia.

Vingren identificou Weidlich como o principal articulador do movimento neonazista escandinavo na época, através de um grupo chamado Federação Nórdica. A história foi transformada no documentário “Hacking Hate”.

Mesmo depois do documentário, Weidlich não foi preso. Ele deixou a região já perto do fim do primeiro semestre de 2022. Passou por Moscou, São Petersburgo e Istambul. Na época, sua companheira era russa.

Ainda em 2022, o neonazista voltou ao Brasil, mais especificamente no Rio Grande do Norte. Posteriormente estabeleceu-se como sócio de sua mãe na São Jorge Empreendimentos.

Em março de 2023, por intermédio de um advogado, ele apresentou à Justiça Federal em São Paulo uma petição pela opção de nacionalidade brasileira, que foi concedida.
A vida no Brasil

Assim que voltou ao Brasil, em meados de 2022, também por meio de um perfil no TikTok, Weidlich postava vídeos e mensagens em português sobre o Grupo Wagner.

A presença em Blumenau também dá pistas das intenções de Weidlich. A cidade catarinense já passou por diversas operações policiais de combate a células neonazistas.

Procurada, a defesa de Vincent Weidlich não deu retorno até o fechamento da matéria. A Procuradoria do MPF e a delegacia da PF em São Paulo alegaram sigilo no caso. (Edição: Mariama Correia)


Apoio da Igreja Católica a Hitler foi vergonhoso, admitem bispos da Alemanha



Comentários

Post mais lidos nos últimos 7 dias