Por que o cérebro humano manteve mecanismos capazes de permitir que o indivíduo se autodestrua?
Walace Gomes Lealneurocientista e professor do Instituto de Saúde Coletiva, Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA)
The Conversation
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O suicídio permanece um dos maiores desafios de saúde pública global, tirando mais de 700 mil vidas anualmente e se consolidando como uma das principais causas de morte entre jovens adultos, conforme dados da Organização Mundial da Saúde (OMS).
No mundo, o suicídio é a principal causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos.
No mundo, o suicídio é a principal causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos.
No Brasil, os índices são alarmantes. Entre nós, o suicídio é a terceira causa de morte de jovens de 15 a 19 anos. Houve aumento de 50% nas taxas de suicídio para essa faixa etária, segundo o Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde da Fiocruz Bahia (CIDACS).
Ainda há muito a ser estudado para compreender a verdadeira origem desse mecanismo. Embora a psiquiatria tradicional se concentre em desequilíbrios químicos, a capacidade preditiva dos modelos clínicos atuais permanece baixa, como demonstrado em uma meta-análise feita por Franklin e colaboradores, em 2017.
Outra linha de pesquisa busca investigar não apenas como o cérebro falha, mas por que a evolução preservou esse potencial de autodestruição.
Para a biologia evolutiva – ramo da ciência que estuda como os seres vivos mudam ao longo do tempo –, o suicídio traz um paradoxo intrigante: se a seleção natural favorece a sobrevivência e a reprodução, conforme a teoria de Darwin (1859), por que o cérebro humano manteve mecanismos capazes de permitir que o indivíduo se autodestrua?
Ainda há muito a ser estudado para compreender a verdadeira origem desse mecanismo. Embora a psiquiatria tradicional se concentre em desequilíbrios químicos, a capacidade preditiva dos modelos clínicos atuais permanece baixa, como demonstrado em uma meta-análise feita por Franklin e colaboradores, em 2017.
Outra linha de pesquisa busca investigar não apenas como o cérebro falha, mas por que a evolução preservou esse potencial de autodestruição.
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Em mamíferos, existe uma infinidade de relatos pontuais de suicídios de animais, como cães que se afogam propositalmente e outras situações |
Um comportamento ancestral?
A universalidade histórica do suicídio sugere que os circuitos neurais que o permitem podem não ser apenas alterações patológicas da neuroquímica cerebral. Eles podem também corresponder a um comportamento evolutivo preservado na espécie e posteriormente deturpado pelos estressores modernos, mesmo contrariando os princípios da evolução.
A base dessa compreensão reside na teoria da Aptidão Inclusiva de Hamilton (1964), que sugere que genes para um comportamento altruísta podem se espalhar se o benefício para os parentes compensar o custo para o indivíduo.
No reino animal, o “autosacrifício adaptativo” é amplamente documentado, sobretudo entre insetos sociais. Formigas e abelhas exibem comportamentos de autotise (do inglês autothysis), nos quais o indivíduo se autodestrói como estratégia de defesa da colônia, contribuindo para a sobrevivência do grupo.
Certas aranhas praticam a matriofagia, em que a mãe oferece o próprio corpo como alimento para garantir a sobrevivência dos filhotes.
Denys de Catanzaro (1981) aplicou essa lógica ao comportamento humano, sugerindo que pressões seletivas poderiam favorecer um desligamento se a existência de um indivíduo impusesse um custo genético à sua linhagem.
Apesar desses casos de suicídio em mamíferos não possuírem confirmação científica, eles sugerem que há um fenômeno a ser investigado. Esse comportamento autodestrutivo não seria, logicamente, consciente como o suicídio humano, mas provavelmente fruto de uma alteração em circuitos cerebrais específicos por AVC, trauma ou neuroinfecções.
A universalidade histórica do suicídio sugere que os circuitos neurais que o permitem podem não ser apenas alterações patológicas da neuroquímica cerebral. Eles podem também corresponder a um comportamento evolutivo preservado na espécie e posteriormente deturpado pelos estressores modernos, mesmo contrariando os princípios da evolução.
A base dessa compreensão reside na teoria da Aptidão Inclusiva de Hamilton (1964), que sugere que genes para um comportamento altruísta podem se espalhar se o benefício para os parentes compensar o custo para o indivíduo.
No reino animal, o “autosacrifício adaptativo” é amplamente documentado, sobretudo entre insetos sociais. Formigas e abelhas exibem comportamentos de autotise (do inglês autothysis), nos quais o indivíduo se autodestrói como estratégia de defesa da colônia, contribuindo para a sobrevivência do grupo.
Certas aranhas praticam a matriofagia, em que a mãe oferece o próprio corpo como alimento para garantir a sobrevivência dos filhotes.
Denys de Catanzaro (1981) aplicou essa lógica ao comportamento humano, sugerindo que pressões seletivas poderiam favorecer um desligamento se a existência de um indivíduo impusesse um custo genético à sua linhagem.
Apesar desses casos de suicídio em mamíferos não possuírem confirmação científica, eles sugerem que há um fenômeno a ser investigado. Esse comportamento autodestrutivo não seria, logicamente, consciente como o suicídio humano, mas provavelmente fruto de uma alteração em circuitos cerebrais específicos por AVC, trauma ou neuroinfecções.
Mecanismos evolutivos
À luz da literatura científica, uma hipótese que tenho investigado é que o suicídio contemporâneo possa representar um desajuste evolutivo (evolutionary mismatch).
Nessa perspectiva, circuitos cerebrais relacionados a formas ancestrais de auto-sacrifício poderiam persistir no cérebro humano, enquanto o ambiente moderno modificaria ou distorceria os sinais que os ativam.
Uma implicação dessa hipótese é a possibilidade de que indivíduos com maior tendência ao altruísmo e à empatia apresentem maior vulnerabilidade a tais mecanismos neurobiológicos.
Isso pode estar envolvido no risco elevado de suicídio em profissões de cuidado e alta empatia, como médicos e enfermeiros, nas quais a capacidade de sentir a dor do outro pode ser mais elevada, concomitante ao alto estresse adquirido por esse tipo de profissão.
O papel da oxitocina, o hormônio do vínculo social, é central aqui: níveis elevados de oxitocina aumentam a sensibilidade a sinais sociais negativos.
Em um estudo publicado no periódico Nature, cientistas mostraram que o potente efeito antidepressivo da cetamina, droga mais conhecida pelo seu uso em anestesia geral, é explicado pelo fato dessa substância inibir neurônios localizados na habênula lateral (HL).
Como oferece grave risco de dependência química e uso indevido, a cetamina não é usada como antidepressivo de primeira linha. Uma forma derivada, a escetamina, foi eficiente para reduzir a depressão resistente e ideação suicida em conjunto com o tratamento convencional.
A habênula lateral mencionada é um núcleo cerebral com função relacionada à inibição dos centros de recompensa do cérebro que liberam dopamina e serotonina, que mediam sensação de frustrações, angústias e tristeza.
À luz da literatura científica, uma hipótese que tenho investigado é que o suicídio contemporâneo possa representar um desajuste evolutivo (evolutionary mismatch).
Nessa perspectiva, circuitos cerebrais relacionados a formas ancestrais de auto-sacrifício poderiam persistir no cérebro humano, enquanto o ambiente moderno modificaria ou distorceria os sinais que os ativam.
Uma implicação dessa hipótese é a possibilidade de que indivíduos com maior tendência ao altruísmo e à empatia apresentem maior vulnerabilidade a tais mecanismos neurobiológicos.
Isso pode estar envolvido no risco elevado de suicídio em profissões de cuidado e alta empatia, como médicos e enfermeiros, nas quais a capacidade de sentir a dor do outro pode ser mais elevada, concomitante ao alto estresse adquirido por esse tipo de profissão.
O papel da oxitocina, o hormônio do vínculo social, é central aqui: níveis elevados de oxitocina aumentam a sensibilidade a sinais sociais negativos.
Em um estudo publicado no periódico Nature, cientistas mostraram que o potente efeito antidepressivo da cetamina, droga mais conhecida pelo seu uso em anestesia geral, é explicado pelo fato dessa substância inibir neurônios localizados na habênula lateral (HL).
Como oferece grave risco de dependência química e uso indevido, a cetamina não é usada como antidepressivo de primeira linha. Uma forma derivada, a escetamina, foi eficiente para reduzir a depressão resistente e ideação suicida em conjunto com o tratamento convencional.
A habênula lateral mencionada é um núcleo cerebral com função relacionada à inibição dos centros de recompensa do cérebro que liberam dopamina e serotonina, que mediam sensação de frustrações, angústias e tristeza.
Pesquisas recentes indicam que a hiperatividade nessa região medeia o comportamento de retirada social e depressão profunda.
Um sequestro de circuitos cerebrais
Em 1995, o psicólogo americano Daniel Goleman publicou o livro Inteligência Emocional, onde discute, em um dos capítulos, o que chamou de sequestro emocional.
Goleman disse que em estados de crise e contrariedade, indivíduos podem “perder a cabeça” e discutir e até matar, pois as áreas límbicas ligadas à emoção são temporariamente desconectadas dos circuitos inibitórios do neocórtex, incluindo o córtex pré-frontal.
Considerando comportamentos ancestrais, pode-se levantar a hipótese de que o comportamento suicida esteja relacionado ao “sequestro” de um circuito cerebral antigo, preservado ao longo da evolução animal e associado a comportamentos altruísticos voltados à preservação da espécie.
No cérebro humano, entretanto, esse circuito pode ser modulado — e eventualmente desregulado — por estressores característicos das sociedades modernas, contribuindo para a emergência do comportamento suicida.
Isso é consistente com estudos de psicopatologia que mostram que indivíduos com estresse crônico podem tirar a própria vida por eventos aparentemente banais, como o término de um relacionamento entre adolescentes ou uma pequena dívida.
A complexidade das interações humanas não deve ser desconsiderada, pois a dor psíquica é individual.
Abordei isso em um artigo sobre um amigo doutor em farmacologia que se suicidou em 2006, no qual menciono pesquisas que sugerem a existência de uma variabilidade neurobiológica que torna pessoas mais vulneráveis ao comportamento suicida.
Em 1995, o psicólogo americano Daniel Goleman publicou o livro Inteligência Emocional, onde discute, em um dos capítulos, o que chamou de sequestro emocional.
Goleman disse que em estados de crise e contrariedade, indivíduos podem “perder a cabeça” e discutir e até matar, pois as áreas límbicas ligadas à emoção são temporariamente desconectadas dos circuitos inibitórios do neocórtex, incluindo o córtex pré-frontal.
Considerando comportamentos ancestrais, pode-se levantar a hipótese de que o comportamento suicida esteja relacionado ao “sequestro” de um circuito cerebral antigo, preservado ao longo da evolução animal e associado a comportamentos altruísticos voltados à preservação da espécie.
No cérebro humano, entretanto, esse circuito pode ser modulado — e eventualmente desregulado — por estressores característicos das sociedades modernas, contribuindo para a emergência do comportamento suicida.
Isso é consistente com estudos de psicopatologia que mostram que indivíduos com estresse crônico podem tirar a própria vida por eventos aparentemente banais, como o término de um relacionamento entre adolescentes ou uma pequena dívida.
A complexidade das interações humanas não deve ser desconsiderada, pois a dor psíquica é individual.
Abordei isso em um artigo sobre um amigo doutor em farmacologia que se suicidou em 2006, no qual menciono pesquisas que sugerem a existência de uma variabilidade neurobiológica que torna pessoas mais vulneráveis ao comportamento suicida.
Neuroplasticidade e resiliência
Um estudo da psiquiatra e neurocientista Maura Boldrini e colegas da Columbia University Department of Psychiatry indica que alguns indivíduos desenvolvem resiliência ao comportamento suicida após a depressão maior.
Isso está associado à maior neuroplasticidade — a capacidade que o cérebro tem de se reorganizar —, com aumento de neurogênese no giro denteado do hipocampo, o que se relaciona a menor risco de suicídio.
Em pessoas que tiveram depressão após eventos adversos na adolescência, mas não evoluíram para suicídio, observou-se maior volume dessa região, sugerindo um mecanismo compensatório de proteção.
As pesquisas sobre a neurobiologia do comportamento suicida interpretam essa característica como resultado de alterações em circuitos evolutivos sob a ação de estressores modernos.
Aliadas a estudos que mostram aumento de resiliência por meio da neuroplasticidade cerebral, essas hipóteses podem orientar o desenvolvimento de terapias eficazes no futuro.
Ganha força a interpretação do suicídio como uma condição psiquiátrica complexa, que emerge da interação entre vulnerabilidades neurobiológicas, história individual e estressores sociais.
O avanço de técnicas de neuroimagem e o estudo desses circuitos tornam-se centrais para aprofundar a compreensão dos mecanismos envolvidos.
Ao mesmo tempo, o cuidado com pessoas em sofrimento psíquico — especialmente adolescentes e jovens, frequentemente expostos ao isolamento — precisa ser tratado como prioridade em saúde pública. Ao articular conhecimento científico e estratégias de cuidado, abre-se a possibilidade concreta de prevenir mortes evitáveis.
Um estudo da psiquiatra e neurocientista Maura Boldrini e colegas da Columbia University Department of Psychiatry indica que alguns indivíduos desenvolvem resiliência ao comportamento suicida após a depressão maior.
Isso está associado à maior neuroplasticidade — a capacidade que o cérebro tem de se reorganizar —, com aumento de neurogênese no giro denteado do hipocampo, o que se relaciona a menor risco de suicídio.
Em pessoas que tiveram depressão após eventos adversos na adolescência, mas não evoluíram para suicídio, observou-se maior volume dessa região, sugerindo um mecanismo compensatório de proteção.
As pesquisas sobre a neurobiologia do comportamento suicida interpretam essa característica como resultado de alterações em circuitos evolutivos sob a ação de estressores modernos.
Aliadas a estudos que mostram aumento de resiliência por meio da neuroplasticidade cerebral, essas hipóteses podem orientar o desenvolvimento de terapias eficazes no futuro.
Ganha força a interpretação do suicídio como uma condição psiquiátrica complexa, que emerge da interação entre vulnerabilidades neurobiológicas, história individual e estressores sociais.
O avanço de técnicas de neuroimagem e o estudo desses circuitos tornam-se centrais para aprofundar a compreensão dos mecanismos envolvidos.
Ao mesmo tempo, o cuidado com pessoas em sofrimento psíquico — especialmente adolescentes e jovens, frequentemente expostos ao isolamento — precisa ser tratado como prioridade em saúde pública. Ao articular conhecimento científico e estratégias de cuidado, abre-se a possibilidade concreta de prevenir mortes evitáveis.

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