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10 de maio de 1933: Onde queimam livros, acabarão queimando pessoas.

Albert Einstein e Sigmund Freud foram atacados como representantes da “ciência judaica”


Edzard Ernst
professor emérito da Escola de Medicina da Península, na Universidade de Exeter, Inglaterra
professor

Exatamente noventa e três anos atrás, em 10 de maio de 1933, a Alemanha nazista realizou um de seus primeiros e mais simbólicos ataques à liberdade intelectual. Apresentada como uma explosão espontânea de fervor estudantil, a queima de livros foi, na verdade, uma campanha cuidadosamente orquestrada para "purificar" a cultura alemã e alinhá-la à ideologia nacional-socialista.

A iniciativa foi liderada pela Deutsche Studentenschaft (DSt), a União dos Estudantes Alemães, que em maio de 1933 já estava firmemente sob controle nazista. A direção ideológica e a amplificação midiática vieram do Ministério da Propaganda e do Esclarecimento Público de Joseph Goebbels. 


Na fogueira
de Berlim,
Goebbels
proclamou
que “a era do
intelectualismo
judaico
extremista
chegara
ao fim”,
enquadrando
o evento
como um
ponto de
virada cultural

Operacionalmente, a campanha foi coordenada pelo Gabinete Principal de Imprensa e Propaganda do DSt, sob a liderança do estudante Hans Karl Leistritz (frequentemente atribuído erroneamente em alguns relatos), enquanto membros da SA e da SS garantiam a ordem e a visibilidade nos comícios. 

O que se desenrolou não foi um único espetáculo noturno, mas o culminar de um programa estruturado de quatro semanas intitulado "Ação contra o Espírito Não-Alemão".

A campanha começou em 12 de abril com a publicação de doze teses — ecoando deliberadamente Martinho Lutero, denunciando o “intelectualismo judaico” e defendendo uma literatura alemã definida racialmente. 

Fundamental para o esforço foram as listas negras compiladas pelo bibliotecário Wolfgang Herrmann, que identificavam obras consideradas “não alemãs”, incluindo aquelas classificadas como “literatura de asfalto”, um termo pejorativo para a escrita moderna, urbana e socialmente crítica.

Durante as queimadas, os estudantes ritualizaram a destruição recitando "juramentos de fogo" (Feuersprüche), cada um adaptado ao autor condenado. Quando obras de Sigmund Freud foram lançadas às chamas, por exemplo, denunciavam a "supervalorização da vida sexual", ilustrando como mensagens ideológicas acompanhavam a aniquilação física dos textos.

Os alvos abrangiam um amplo espectro intelectual, unindo figuras literárias, científicas e políticas sob o rótulo de subversão cultural. Entre eles estavam Erich Maria Remarque, condenado por seu pacifismo; Karl Marx e Rosa Luxemburgo, por seu pensamento político; e escritores como Heinrich Mann, Bertolt Brecht, Kurt Tucholsky, Alfred Döblin e Stefan Zweig, cujas obras desafiavam o nacionalismo ou o autoritarismo. 

Até mesmo figuras como Albert Einstein e Sigmund Freud foram atacadas como representantes da “ciência judaica”, enquanto autores internacionais como Ernest Hemingway e Jack London foram incluídos por sua suposta inconformidade ideológica. 

A inclusão de Helen Keller, cujos escritos sobre justiça social provocaram particular hostilidade, ressaltou a abrangência e a arbitrariedade do expurgo.

A resposta internacional foi imediata e contundente. Na cidade de Nova Iorque, mais de 100 mil pessoas protestaram contra o que foi amplamente descrito como a “morte da mente”, enquanto organizações como o Congresso Judaico Americano organizaram protestos e boicotes. 

No exílio, intelectuais alemães procuraram preservar o que havia sido destruído: em 1934, a Biblioteca Alemã da Liberdade (Deutsche Freiheitsbibliothek) em Paris começou a colecionar exemplares de obras proibidas para garantir sua sobrevivência.

Os eventos de 10 de maio rapidamente assumiram um significado simbólico sombrio. O aviso anterior de Heinrich Heine — "Onde você queima livros, você acaba queimando pessoas" — provou ser menos uma metáfora do que uma profecia, prenunciando os crimes muito maiores que se seguiriam.




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