O frei Gilson da Silva Pupo Azevedo, conhecido como Frei Gilson, um dos nomes de maior destaque do catolicismo conservador brasileiro na internet, está expandindo seu império do digital para o físico.
Ele está construindo um gigantesco centro dedicado a "contemplação e oração" na zona sul de São Paulo (SP).
O projeto, capitaneado pela organização Obra de Nossa Senhora de Guadalupe, presidida pelo religioso, será levantado em terreno adquirido com de 86 mil metros quadrados, o que equivale a cerca de 12 campos de futebol.
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Frei Gilson tem cerca de 28 milhões de seguidores nas redes sociais |
A localização do empreendimento, mantida em segredo até então, foi descoberta pela Folha de S.Paulo, entre os bairros Capela do Socorro e São Rafael, próximo à estação Bruno Covas-Mendes/Vila Natal.
Frei Gilson confirmou a informação, e sua assessoria destacou que a aquisição do terreno, avaliado em R$ 21,9 milhões no final de 2025, foi viabilizada pela "generosidade de fiéis de diversas partes do mundo, por meio de doações espontâneas".
Registros de imóveis indicam que a compra envolveu o parcelamento do valor em 18 prestações mensais de aproximadamente R$ 1 milhão cada.
Com mais de 20 milhões de seguidores somados em suas redes sociais (apenas no YouTube são 8,7 milhões e no Instagram outros 7,3 milhões, de acordo com dados de 2025/2026), Gilson Azevedo é ideologicamente identificado com a extrema-direita.
Suas pregações defendem fervorosamente a "família tradicional", um eufemismo utilizado para negar apoio a casais homoafetivos e combater pautas de gênero.
O frade é considerado tão conservador quanto os mais reacionários pastores pentecostais, adotando um discurso direto e franco sobre pecado e conversão, o que o diferencia de clérigos com perfil mais progressista ou "popstar" genérico.
Essa postura o coloca frequentemente no centro de polêmicas e críticas por parte da esquerda nas redes sociais. No entanto, o religioso encontra forte defesa entre representantes da direita política.
O deputado bolsonarista Nikolas Ferreira (PL-MG), por exemplo, já saiu publicamente em apoio ao frade, minimizando divergências teológicas (o parlamentar é evangélico) em nome da pauta moral comum.
O próprio ex-presidente Jair Bolsonaro já utilizou suas redes para endossar o trabalho de Gilson Azevedo, classificando-o como vítima de "perseguição política pela esquerda".
Descrito como um "oásis de espiritualidade" para "adoração perpétua 24 horas por dia", o megaprojeto inclui uma capela principal para 500 pessoas, estúdios para gravação do rosário e prédios administrativos.
Um dos focos centrais serão os retiros espirituais, com previsão de 200 quartos individuais para hospedagem de fiéis.
O conjunto também abrigará cinco pequenas capelas temáticas dedicadas às aparições de Nossa Senhora de Guadalupe, devoção central na vida do religioso.
O sucesso de Gilson Azevedo é medido em números impressionantes. Em 2025, ele foi o streamer mais assistido do Brasil, superando gamers e comentaristas esportivos, com seus vídeos acumulando mais de 153 milhões de horas assistidas.
Suas lives na madrugada, especialmente durante a Quaresma de São Miguel, chegam a atrair mais de um milhão de pessoas simultaneamente às 4h da manhã para rezar o rosário.
A ascensão do frade e seu alinhamento político geram desconforto na cúpula da Igreja Católica no Brasil. A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), cuja tendência majoritária é de centro-esquerda, já enviou "recados" a Gilson Azevedo para que ele evite dar apoio explícito a candidatos políticos, uma diretriz que, em tese, vale para todos os sacerdotes, visando preservar a unidade da instituição e evitar o uso partidário do púlpito (ou das redes sociais).
Apesar dos "puxões de orelha", Gilson Azevedo segue com o apoio de seu superior direto, dom José Negri, bispo da Diocese de Santo Amaro. Foi o bispo quem confiou ao frade a missão de criar um projeto estruturado para exercer seu carisma.
O frade afirmou acolher a proposta "como um chamado de Deus". Atualmente, o projeto do megacomplexo encontra-se em fase de elaboração técnica e regularização junto à prefeitura de São Paulo, sem data prevista para conclusão, embora a diocese trabalhe com um horizonte de cerca de sete anos.
O financiamento continua dependendo da "fé e generosidade" dos seguidores. Além das doações diretas, uma lojinha virtual comercializa produtos como um "caderno de meditação".
Enquanto as obras não avançam no terreno, frei Gilson Azevedo continua alimentando seu império digital, convertendo horas de visualização em influência política e religiosa, agora materializada em concreto na zona sul paulistana.

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