Eu, Zahira Lieneke, 34, sofri abuso de João de Deus

“Quatro anos atrás, quando eu estava em um dos meus momentos mais vulneráveis, viajei para Abadiânia para ver o mundialmente conhecido 'curandeiro' chamado João de Deus. Vi muitos vídeos sobre seu trabalho no YouTube, li dois livros e assisti atentamente à entrevista de Oprah com ele. Então organizei uma viagem de cinco semanas a Abadiânia.

Chegando à Casa de Dom Inácio, você entra em uma longa fila de atendimentos. João, incorporado por uma entidade, te dá um máximo de três desejos. Um dos meus foi curar meu trauma sexual. A 'entidade' me disse, então, que eu deveria voltar ao fim da sessão para conversar pessoalmente com João, sem ele estar incorporado.

"Ele pegou a minha
mão e a colocou
 em seu pênis"

Esperei junto a outras mulheres que formavam uma pequena fila do lado de fora de seu escritório, aos fundos da casa onde as crirugias são feitas, todas aguaradavam para a 'consulta' individual. Fui a última. Assim que entrei, a equipe de staff saiu. Fiquei sozinha com ele.

Ele me perguntou por que eu estava ali. Respondi que queria curar meu trauma sexual. Ele assentiu, se levantou e me pediu para ficar em sua frente, de costas para ele.

Ele tocou meu corpo. Me cheirou.

Cheguei ali impressionada com esse homem. Acreditava que ele faria um milagre. No entanto, durante aquela 'consulta' algo se apoderou de mim: o sentimento de que ele era um homem sujo. Mas continuei ali, mantendo a fé em seus poderes de cura.

Ele me levou para seu banheiro, em um espaço dentro do escritório. Me colocou em frente ao espelho e me perguntou o que eu via. Eu não entendi o que ele queria dizer. 'Ehm, eu?', respondi.

Posicionado atrás de mim, ele pegou minha mão e a colocou em seu pênis. Eu congelei. 'O que está acontecendo?', pensei. Ele então me moveu para fora do banheiro. De volta ao escritório, se sentou em uma grande poltrona e me colocou de joelhos em sua frente. Novamente, colocou minha mão em seu pênis e, colocando sua mão sobre a minha, me fez masturbá-lo. Disse para eu sorrir e me 'sentir alegre'. Eu só sentia repulsa.

Estava congelada pelo pânico. Minha mente seguia girando, continuamente repetindo a pergunta 'que p*rra é essa?'.

Enquanto isso, ele falava sobre energia e meus chacras. Eu acreditava em milagres. 'Meu trauma desaparecerá com isso?', me perguntei, em silêncio.

Ele ejaculou. Disse para eu dar a ele uma toalha e me mandou lavar as mãos. Quando voltei ao escritório, ele me deu pedras preciosas como um presente. Me sentei no sofá, congelada. Me sentia tão suja enquanto olhava para aquelas pedras... Então uma das funcionárias da Casa chega e olha para mim com uma expressão de raiva e de desconfiança. Tudo que eu quero dizer é 'SOCORRO', mas estava muda. 'Que m*rda é essa?', de novo, eu penso.

Eventualmente, eu consigo levantar e sair. Lembro de ouvi-lo dizendo: 'Você é sempre bem vinda aqui'.

Eu ainda levaria alguns dias antes de voltar à Holanda.

Depois disso, ganhei privilégios especiais na Casa. Todo dia eu entrava nas salas de cura, sentava em uma das cadeiras grandes e ali permanecia por oito horas com os olhos fechados. Durante essa meditação, sentia como se as doenças dos outros passassem  através de mim: tossia, quase vomitei várias vezes, me senti comovida. Senti a dor e o coração do povo. Tenho fé que ajudei as entidades a curar outras pessoas. Senti que estava fazendo algo importante.

Em outro dia, em seu escritório, não sei por que entrei lá novamente... ele me puxou violentamente para o banheiro. Enfiou a língua na minha boca. Me virou. Puxou minhas calças e me penetrou por trás. Ele ejaculou. Depois me deu uma toalha.

Meu pensamento foi: 'O que aconteceria se eu engravidasse? Sentia um total e completo congelamento.'

Quando estava fora daquele lugar, eu confiei na mulher que eu havia conhecido por lá e que comecei a namorar. Quando estávamos longe, dois meses depois, contei o que aconteceu. Nós duas nunca voltamos a nos falar.

Eu tenho medo até agora."

Depoimento publicado em "O Globo".



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