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Religião, ateísmo, ciência, etc.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Ateus contam que sua dedicação ao voluntariado causa espanto

por Alessandra Oggioni
para o portal iG

Bondade de Erika
provoca espanto
 
Uma das passagens mais conhecidas da Bíblia, a parábola do bom samaritano descreve um episódio narrado por Jesus no Evangelho de Lucas (10: 25-37). Na história, um homem é atacado por ladrões que o espancam e o deixam, nu e quase morto, na estrada. Por ali passam primeiramente um sacerdote e um levita, homens dedicados à religião, que fingem não ver o ferido. O terceiro a vir pela estrada é um samaritano. É ele quem socorre o desconhecido, cuida dele, o leva a uma hospedaria e paga a conta. O trecho é tão famoso que “bom samaritano” virou um sinônimo de pessoas que fazem o bem.

Erika, Leonardo e Wendell são bons samaritanos. Além da disposição para ajudar desconhecidos, eles têm em comum o fato de serem ateus. E, justamente por isso, se acostumaram a lidar com o espanto das pessoas.

“Como uma pessoa tão boa como você não acredita em Deus?”. Essa é uma pergunta que a professora Erika Kodato (foto acima) 40, ouve com frequência. Ateísta, ela vai toda semana a um abrigo de menores à espera de adoção para dar não só aulas de reforço escolar, mas também carinho de mãe. “Se você é ateu, não esperam de você atitudes de solidariedade. É como se você fosse uma pessoa individualista ou materialista simplesmente porque não crê em Deus”, diz ela.

Na entidade Casa São José, em Arujá (SP), Erika trabalha com sete crianças entre 7 e 14 anos. Além do carinho, beijos e abraços, a professora auxilia nas dúvidas da lição de casa, ensina origami e faz atividades para desenvolver o apredizado. “É uma espécie de reforço escolar mais individualizado. As crianças geralmente têm pai e mãe para fazer isso, mas estas não têm”, explica.

Erika é ateísta desde sempre. O avô e o pai dela também eram ateus, assim como três filhos da professora. Para ela, é muito natural não crer em uma entidade divina. Mas Erika entende que isso soa estranho em um país tão católico como o Brasil. “Até eu me pego usando expressões do tipo ‘graças a Deus’. Faz parte da nossa cultura”, conta, bem-humorada.

Embora o ateísmo já seja uma opção natural na família, ela diz que não ficaria chateada se um dos filhos decidisse seguir uma religião. “Vou achar legal, sinal que dei a eles liberdade suficiente para fazer o que quiserem. Acreditar em Deus é um sentimento. Algumas pessoas têm, outras não”.

Além do trabalho que faz na entidade, Erika também é expert em incentivar outras pessoas a se tornarem voluntárias. Professora de geografia em uma escola particular de Arujá, ela organiza visitas mensais dos alunos adolescentes ao abrigo, para fazer brincadeiras e contação de histórias. Ela também convenceu o professor de pilates a dar aulas regulares para as crianças. “A única coisa que digo é: se começou, tem que fazer pra sempre, porque eles se apegam mesmo”, conta.

Leonardo Dallacqua de Carvalho
Carvalho dá palestra
contra o preconceito
Também ateu, o historiador Leonardo Dallacqua de Carvalho (foto), 25, não vê cor, raça ou religião na hora de ajudar o próximo. Voluntário no Instituto Zimbauê, onde realiza principalmente palestras contra o preconceito racial, ele trabalha com temas relacionados à cultura negra – inclusive na defesa de religiões afro-brasileiras, como o candomblé. “O objetivo deste projeto é dar um espaço igualitário para esta religião. Meu papel, mesmo não acreditando em Deus, é buscar um espaço para que todos vivam em harmonia, onde os preceitos não sejam livros sagrados, mas a constituição brasileira”, diz.

Além deste trabalho realizado na cidade de Assis, interior de São Paulo, onde mora atualmente, Leonardo também faz parte da ONG Ágora, em Cândido Mota. Lá, ele dá aulas para adolescentes carentes em um cursinho pré-vestibular gratuito. “A intenção é ajudar pessoas que não têm recursos a ter uma educação com mais qualidade”. O professor Leonardo entra em ação todos os sábados, dando aulas de história e geografia para cerca de 40 jovens.

De família cristã, Leonardo se tornou ateu por convicção. “Sempre digo que a ética e o caráter são o que faz você se doar ao outro, não a espera de uma recompensa divina. O ateu acredita apenas na bondade”, esclarece.

Curiosamente, Leonardo também chegou a dar aulas de educação religiosa na rede pública. “Eu ensinava a história das religiões de maneira igualitária e sem posições ideológicas”, diz ele que defende que este tipo de aula deve ser facultativo.

A notícia de um incêndio na Favela do Moinho, no centro de São Paulo, em dezembro de 2011, despertou em Wendell da Costa Nascimento (na foto abaixo) o desejo de ajudar os mais carentes. Na época com 18 anos, o técnico em informática se sensibilizou com a situação dos moradores após a tragédia. “Resolvi arrecadar roupas e alimentos entre os amigos e levei tudo para lá”, conta Wendell, que é ateu.

Wendell da Costa Nascimento
Wendell presta ajuda
às pessoas de favela
O ato voluntário que ajudou cerca de 30 famílias foi o primeiro passo para que o trabalho fosse mais regular. Meses depois, Wendell organizou mais uma ação em favela, desta vez no bairro de Itaquera, também em São Paulo, após uma enchente, em 2012, quando novamente levou roupas e mantimentos.

Além do trabalho focado nas favelas, Wendell também participa de mutirões para distribuir comida a moradores de rua e ajuda na organização de shows beneficentes em prol de instituições de caridade.

Para ele, o fato de não acreditar em Deus não o impede de praticar a caridade. Wendell diz que muitas vezes as pessoas veem com desconfiança o trabalho realizado, mas isso não o aborrece. “Elas ficam impressionadas e me perguntam como um ateu pode fazer isso”, relata.

Wendell enfrentou um certo desconforto na própria família ao se tornar ateu, há dois anos. Apesar de os pais não terem religião, eles sempre foram muito crentes em Deus.

“Minha mãe se assustou um pouco, mas fui explicando que são minhas atitudes que mostram quem eu sou realmente”, conta.

“Eu faço este trabalho porque me incomoda ver tanta desgraça, e quero fazer algo para melhorar a vida dessas pessoas, dar esperança a elas. Isso me deixa feliz”, conclui o jovem.





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Ateísmo


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