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Religião, ateísmo, teoria da evolução e astronomia

domingo, 24 de junho de 2012

Rapper fugido do Irã diz como é viver sob ameaças de morte

do Der Spiegel

Shahin Najafi
Shahin Najafi foi
 sentenciado a
 três anos de prisão
Fugindo das ameaças dos aiatolás iranianos, o rapper Shahin Najafi (foto), 31, se refugiou numa casa perto de Colônia, na Alemanha. Embora esteja sob proteção policial, as quatro fatwas lançadas contra ele até o momento pelos principais clérigos iranianos parecem incrivelmente distantes.

Najafi lançou uma música na qual implorava ao décimo imã, Ali al-Hadi al-Naqi, que voltasse à Terra para solucionar os problemas do Irã contemporâneo. Os xiitas veneram al-Naqi, que morreu 1.143 anos atrás e era descendente direto de Maomé. A canção foi baixada mais de 500 mil vezes apenas no Irã e foi assistida mais de meio milhão de vezes no YouTube.

Como é sua rotina no esconderijo em que está?

Leio, escrevo, tenho o violão comigo. Tento não pensar nas ameaças.

Alguém o visita?

Não, ninguém.

Você é casado aqui na Alemanha. Como sua família está lidando com a situação?

É difícil. Prefiro não comentar.

Quando começou a se interessar por música?

Dos 14 aos 18 anos, treinei para me tornar um cantor profissional dos versos alcorânicos.

Qual era o aspecto que mais o fascinava?

Eu era um menino muito religioso e, um dia, ouvi a música de um cantor alcorânico egípcio. A melancolia daquela música me tocou tão profundamente que me levou às lágrimas.

Depois, você frequentou a universidade?

Sim, cursei sociologia, mas não cheguei a me formar - principalmente porque se tratava de sociologia islâmica. Eu tinha dificuldade para aceitar os dogmas. Não se tratava de uma ciência, como ocorre no Ocidente. Fui expulso da universidade. Então, tive de me alistar no Exército. Foi então que perdi a fé.

O que houve?

Até então, eu era um jovem idealista. Vivia no mundo da poesia e das ideias. Pensava que a vida era apenas arte e filosofia. No Exército, descobri subitamente o mundo real.

Por que foi obrigado a deixar o Irã?

Depois do Exército, toquei em bandas que faziam versões cover de músicas pop ocidentais. Inicialmente, tocávamos apenas versões instrumentais, evitando problemas com as autoridades. Mas, a partir de 2003, comecei a compor, a tocar minhas próprias canções e logo me vi perseguido pelos agentes do serviço de informações. Em novembro de 2004, fiz minha última apresentação e fugi para a Alemanha, porque tinha sido sentenciado a 3 anos de prisão e a 100 chibatadas em razão de uma de minhas músicas.

Para um artista, não deve ser fácil viver no exílio. O público desaparece e é difícil conhecer novos ouvintes.

Experimentei bastante e, finalmente, passei a me dedicar ao rap. Na verdade, não gosto muito do hip-hop. A música é repleta de clichês e a subcultura, principalmente o lado machista, não me atrai. Mas, ao mesmo tempo, o rap é uma linguagem simples, direta e forte.

Capa do CD que contém a música Naqi, de Shahin Najafi
Capa da música Naqi é uma alusão
 aos casamentos temporários no Irã
Não chega a ser surpreendente que sua canção 'Naqi' tenha provocado tamanha reação. Afinal, você evoca um imã considerado importantíssimo para os xiitas e faz versos falando de himens reconstituídos, corrupção e sexo. A capa mostra uma mesquita cuja redoma tem a forma de um seio, sobre a qual tremula uma bandeira do arco-íris. Você não acha que é difícil ser mais provocativo do que isso?

Sempre soube que minhas canções provocariam o regime. Entre outras coisas, a capa é uma alusão aos casamentos temporários no Irã. E a bandeira sobre a mesquita simboliza a pena de morte que é aplicada aos homossexuais em nome da religião. Ainda assim, admito que não esperava uma reação tão extrema.

Há algo de satírico nas letras de suas músicas.

Sim, sou um sátiro. Os poderosos não gostam de sátiros.

Salman Rushdie também poderia ser considerado um sátiro.

Os fundamentalistas não sabem brincar. Nunca aceitam piadas. Querem que obedeçamos cegamente e acreditemos nos seus dogmas.

Não se sente horrorizado pela possibilidade de ter de passar muito tempo escondido?

É claro que sim. Sou um músico. Preciso me apresentar. Não posso desistir. Tenho de ser ainda mais corajoso. Sabemos que temos muitos inimigos. Não apenas no Irã. Mas nada disso importa. O futuro nos pertence. Acho que a arte é uma força capaz de transformar o mundo.

São palavras nobres.

Na noite passada, vi um vídeo na internet. Nele, dois homens mascarados me ameaçam, falando em persa com sotaque afegão. Eles perguntam: por que você insulta nossa fé? Vamos encontrá-lo, não importa onde esteja escondido. Não estará a salvo em lugar nenhum. E eles também falam alemão. Talvez morem na Alemanha ou tenham crescido aqui. O que devo fazer? Desistir? Demonstrar arrependimento? Não farei nada disso. Acredito na história. Precisamos de tempo. Será preciso tempo para que as coisas comecem a mudar. Mas elas vão mudar.

Com tradução de Augusto Calil para o Estadão.

Irã condena atriz a chibatadas e à prisão pelo filme Teerã à Venda
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