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Religião, ateísmo, teoria da evolução e astronomia

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domingo, 24 de janeiro de 2016

Notas de um cético: ninguém deveria se ajoelhar

Curva-se a um ente fictício
empobrece a dignidade humana
Sou um ateu cercado em casa por imagens de santos por todos os lados. Minha mulher é católica praticante (mas não fanática, claro), acredita no poder da oração, e eu respeito a crença dela, assim como ela compreende a minha descrença. 

Estamos de acordo, entre outras, em uma coisa: a tolerância e a cordialidade têm de estar acima de tudo, incluindo Deus ou o conceito Dele, dentro de casa e fora dela.

Com quem quer que seja, dificilmente discuto religião, ateísmo ou o que for. Não faço pregação de coisa alguma, não quero convencer a ninguém. Não sou detentor de palavra de salvação alguma e tenho muito mais dúvidas do que certezas.

Apesar disso, há quem me aponte na internet como ateu radical, só porque escrevo um site sobre crença e descrença de um ponto de vista não confessional. 

Por muitos anos, no extinto jornal "Diário Popular", de São Paulo, escrevi uma coluna diária sobre economia, e ninguém nunca me chamou de jornalista "radical" de assuntos econômicos.

Ultimamente, em família, nem sequer converso sobre política, tema que tem despertado mais a emoção do que a racionalidade das pessoas. Tendo a ser mais racional, embora alguns pessoas emocionais possam discordar disso.

Aqui, procuro abordar temas religiosos de um ponto de vista cético, em uma tentativa de se ter uma modesta contraposição à confessionalidade dos jornalões e de seus portais, o que explica, entre outras coisas, o pouco empenho na cobertura das vergonhosas transgressões quase diárias ao Estado laico brasileiro.    

O G1 é um exemplo de jornalismo confessional. Para se ter uma ideia: o portal da organização Globo publica com frequência que exemplar da Bíblia sai ileso de incêndio, como se isso fosse um milagre, sem procurar saber de uma especialista por que um livro de capa dura fechado tem mais chance de resistir a um incêndio. 

Esse tipo de informação é lixo, e ninguém reclama.

Voltando ao que estava dizendo no começo.

Às vezes acompanho minha mulher à missa dominical. Respeitosamente, participo do sente-e-levanta da missa. Aceito o aperto de mãos do rito “A paz de Cristo”, mas não o passo adiante por me sentir constrangido. Não seria honesto de minha parte.

Eu só recuso a me ajoelhar durante a missa, além de rezar, obviamente.

Acho que, para preservar a dignidade humana, ninguém deveria se ajoelhar diante de pessoa alguma e muito menos para uma entidade fictícia. Mas quem quiser fazê-lo, tudo bem, que o faça.

Cada pessoa é responsável por sua vida, claro, e quem se sente confortado em acreditar em um amigo invisível deve ter a garantia de poder manter sua crença. Só me oponho firmemente contra quem quer impor a sua crença religiosa à sociedade. Isso não aceito.

Com disse, talvez com certo exagero, sou um ateu cercado em casa por imagens de santos. No hall, em um pequeno oratório, há um menino Jesus nos braços de José e Maria que minha mulher ganhou de minha tia Teresa, de São Carlos. Na sala de visita, há uma imagem do papa João XXIII com um só braço — o outro se quebrou em uma queda.

Na sala de jantar, em um oratório sobre uma pequena adega, de cinco vinhos, está a Nossa Senhora da Conceição, da qual minha mulher é devota. Suponho que minha mulher tem rezado à santa por mim. Agradeço a intenção.

A minha expectativa é de que a santa não faça um milagre reverso, transformando aqueles bons vinhos em água.

No roupeiro, que fica perto do escritório, onde escrevo este site, há mais santos. Eles não me incomodam, e eu não os perturbo. Convivemos pacificamente. Eu cá, eles lá.

Só espero que minha mulher não coloque um crucifixo na parede da cabeceira da cama (o que ela nunca cogitou, a bem da verdade). 

Não porque sou ateu, mas porque sempre há o risco de o crucifixo cair na minha cabeça ou na dela.

Notas de um cético






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