Por que religiosos acham que podem restringir o que eu e meus filhos lemos e vemos?

por Hélio Schwartsman
para Folha de S.Paulo

A Frente Parlamentar em Defesa da Vida e da Família se manifestou contra a animação brasileira "Super Drags", a estrear na Netflix, que retrata transexuais como super-heróis, e pediu o aumento da classificação etária do desenho.

Há uma coisa que não entendo no pensamento de grande parte dos conservadores. Por que eles se sentem no direito de restringir o que eu e meus filhos lemos e vemos? Receio que haja algo de patológico aí.

Ninguém pode
 impor a sua
moral a outros

Com efeito, jamais me ocorreu de impedir os religiosos e seus rebentos de ler a Bíblia, frequentar igrejas nem de praticar nenhum tipo de ritual. Até me manifestei contra as normas europeias que impedem fiéis de usar símbolos religiosos ostensivos e contra o projeto de lei brasileiro que proibiria clérigos de fazer pregações contra o homossexualismo.

A Bíblia, lamento dizê-lo, é um texto com passagens indisfarçavelmente homofóbicas, como Levítico 20:13, que manda matar o homem que se deita com outro homem. Assim, para proibir um religioso de condenar o ato homossexual, seria preciso censurar a própria Bíblia, o que me parece absurdo.

Por paralelismo, eu e minha família deveríamos receber dos conservadores idêntico tratamento, isto é, que nos deixem usufruir de títulos literários e peças artísticas sem nenhum tipo de interferência, mesmo que sejam consideradas blasfemas e pornográficas. Se o religioso quiser impedir seu filho de ver "Super Drags", é direito dele. Mas não há razão para querer impor sua moral a mim e à minha família.

Tolerância mútua é o mínimo que precisamos para viver em sociedade. Não é uma coincidência que a aceitação do outro esteja na base das filosofias liberais e tenha sido incorporada até por algumas religiões. A famosa regra de ouro —"Tudo que quereis que os homens vos façam, fazei-o também a eles"—, tão enaltecida por todos aqueles que dizem pautar-se pelos ensinamentos de Cristo, está aqui sendo solenemente ignorada.

Esse texto foi publicado originalmente com o título a "Escorregadela cristã".



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