Vítima de pedofilia denuncia colégio católico da Argentina


por João Vitor Santos
para IHU Online

Ele tem 52 anos, é casado e pai de dois filhos. Trabalhou como professor de tênis e importador de móveis, mas hoje enfrenta o desafio de viver uma verdadeira cruzada para combater o abuso sexual a crianças. 

Seu front de batalha é a página no Facebook Cruzada Francisca, pelo qual recebe denúncias de casos e articula apoio a vítimas e suas famílias. 

A vida de Rufino Varela mudou desde que trouxe a público os abusos que sofrera aos 12 anos de idade, dentro de uma escola de confissão católica na Argentina. Mas não é qualquer escola, é uma das mais tradicionais do país, a Cardenal Newman. 

Rufino aos 12 anos

Recentemente, o colégio virou notícia por destacar que entre seus ex-alunos com notoriedade na sociedade está o atual presidente argentino, Maurício Macri, além de vários membros de seu governo.

Varela tinha 12 anos quando foi abusado pelo padre irlandês Finnlugh Mac Conastair, conhecido no colégio como padre Alfredo. Sua história voltou a público nessa semana, cerca de seis meses depois de relatar em detalhes os abusos ao jornal La Nación. Desde então, Varela diz que vem reunindo testemunho de outros ex-alunos, chegando já a 22 casos relatados. 

A direção do Newman informa que cinco estudantes se apresentaram a uma comissão de psicólogos criada especialmente para tratar desses casos. Entretanto, reconhece que o número de vítimas pode ser muito maior e que muitos sequer querem reviver suas histórias de abusos.

Era por volta do meio dia quando, em 1977, o menino Varela procurou o padre Alfredo para denunciar que um funcionário de sua família abusava dele.

O religioso o levou para seu quarto e, debaixo de um cobertor, obrigou o garoto a baixar as calças e, de bruços, acariciou o menino enquanto perguntava detalhes do abuso que havia sofrido. Depois disso, o padre teria dito, segundo o próprio Varela relata ao jornal El País: “estamos em paz e este é um segredo entre nós e Deus”. Depois, ainda quis dar alguns doces ao garoto, que o empurrou e voltou chorando para sala de aula.


Foram muitos anos até que Varela conseguiu elaborar o que havia passado. Embora a história fosse conhecida entre um círculo pequeno de amigos, decidiu tornar o caso público assim que soube que o colégio estava programando evento para condecorar Macri, um ex-aluno que chegara à presidência. Antes, porém, Varela escreveu ao diretor contando o que sofrera e pedindo que, assim como ocorria a condecoração a Macri, lhe fosse dado um pedido público de desculpas, fato que nunca ocorreu.

Desde que trouxe a história a público, Varela tem sido acusado por ex-colegas de manchar a imagem do colégio Cardenal Newman por se opor ao destaque que tem dado a Macri. Mas, em entrevista ao jornal El País, ele destaca que também tem recebido muitas manifestações de solidariedade pelo seu ato. 

“O abuso não é de direita nem esquerda, não é católico, judeu ou protestante. As pessoas não pobres e pessoas ricas. O agressor escolhe sua vítima por uma questão de oportunidade e de estudar, mas não pede nada para que todos estejam expostos “, diz ele na entrevista.

Varela contou ao El País que, semanas atrás, recebeu um e-mail da polícia irlandesa em que pede para ajudar a entrar em contato com outras vítimas e abusadores que ainda poderiam estar vivos. O padre Alfredo morreu em 1997, mas o diretor da escola durante os anos 70, John Burke, estaria na Irlanda.

Em 1981, Burke aposentou padre Alfredo sem informar as causas, que passou a viver na casa paroquial José León Suárez, na província de Buenos Aires.

Na semana passada, outro ex-aluno da escola, Guillermo Newbery, disse à revista Notícias que denunciou em 1964 o então diretor do primário, padre Derham, por acariciar vários de seus colegas. De acordo com o semanário, o padre foi transferido para uma escola em Montevidéu e Newbery foi expulso do colégio Newman.

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