Biólogo critica Mackenzie por investir em pseudociência



por Fábio Raposo do Amaral
biólogo

Como professor universitário e pesquisador na área de biodiversidade e evolução, confesso meu choque com a iniciativa da Universidade Presbiteriana Mackenzie (instituição onde cursei minha graduação em biologia) de desenvolver um instituto focado em discutir o design inteligente, como anunciado na Folha de São Paulo no dia 10 de maio de 2017 em um texto de Reinaldo José Lopes.

O design inteligente é uma explicação pseudocientífica para a complexidade de estruturas que encontramos na natureza. A evolução – mudança na frequência das características herdáveis ao longo das gerações – por si só explica o que vemos na natureza, independente da complexidade, em todos os seus níveis hierárquicos – desde moléculas a ecossistemas.

Processos como a mutação, seleção natural e deriva genética geraram a diversidade que se observa no planeta, o que inclusive pode ser demonstrado experimentalmente – característica tão desejável do método científico, a falseabilidade e replicabilidade, algo impossível com o design inteligente.

Evolução não é só assunto para a academia, já que não é difícil perceber a evolução no dia a dia.

O ato de comer um hambúrguer apetitoso, por exemplo, ilustra o resultado da manipulação de processos evolutivos por humanos – seleção artificial e cruzamentos planejados para obter gado, alface, tomate com características mais desejáveis. Ou quando temos infecções respiratórias que tomam mais tempo que o normal para serem curadas por uso indevido de antibióticos, selecionando linhagens mutantes resistentes. Ou quando chegamos em casa e somos recebidos por cães – que podem ter o tamanho de uma chinchila ou serem maiores que uma capivara – combinações de características já existentes em populações naturais de lobos, mas manipuladas por milhares de anos pelo homem.

Cães também nos ajudam a entender doenças genéticas humanas por compartilharem boa parte dos seus genomas conosco, pois compartilhamos um ancestral comum em algum ponto da árvore da vida que liga todos os seres vivos.

Instituições particulares de ensino têm um papel importante na educação e inovação por todo o mundo – e muitas das universidades de excelência pelo mundo, como Harvard, Stanford e Cornell, são particulares.

Cabe ao Mackenzie reconhecer seu papel como uma delas – e fomentar iniciativas científicas, como talvez o desenvolvimento de um instituto para o estudo da evolução – e não o caminho contrário. 

Além disso, cabe ao curso de biologia da mesma universidade se posicionar contra o novo instituto, para mostrar aos alunos pretéritos, atuais e futuros que se preocupa com a teoria que ensina nas salas de aula e com a formação de biólogos de excelência.

Mackenzie fez convênio com
 instituto criacionista americano

O texto de Fábio Raposo do Amaral — professor-adjunto e vice-chefe do Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva Universidade Federal de São Paulo, campus Diadema (SP) — foi publicado originalmente no blog Darwin e Deus.

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‘Professor de ciência no Mackenzie defendia, sim, o criacionismo’