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Religião, ateísmo, teoria da evolução e astronomia

domingo, 19 de junho de 2016

Corão condena os gays da Terra, mas exalta os do Paraíso

'Mancebos eternamente jovens' do Éden

por Hélio Schwartsman
para Folha de S.Paulo

Os indícios agora sugerem que Omar Mateen, o autor do atentado contra a boate gay de Orlando, tinha tendências homossexuais. Ele já havia frequentado a casa noturna e era usuário de um aplicativo para marcar encontros gays.

A leitura que se impõe, como indicaram Clóvis Rossi e Contardo Calligaris, é que Mateen se voltou contra aquilo que não suportava em si próprio. Já que a religião e o pai reprimiam sua homossexualidade, ele "solucionou" o conflito cometendo um suicídio no qual levaria consigo o maior número possível de gays.

Não discordo dessa interpretação, mas gostaria de frisar que a ambivalência que marcou o gesto de Mateen também está presente nos textos religiosos do islamismo. No mundo terreno, o islã condena com veemência o homossexualismo. O Corão conta nada menos do que nove vezes a história de Ló e a pecaminosa cidade de Sodoma. Nas versões mais explícitas, como as das suras 7:80 e 26:165, o ato de homens que se deitam com homens é qualificado como transgressão extrema. Os ahadith, os ditos e feitos do profeta, que têm força jurisprudencial, vão além e mandam executar os que se comportem como o "povo de Ló" (Abu Dawud 4462).

No Paraíso, porém, as regras não são tão rígidas. Ao contrário, coisas proibidas na Terra se tornam permitidas e abundantes. No Jardim das Delícias, poderemos beber vinho (83:25 e 47:15), fartar-nos com carne de porco (52:22) e deliciar-nos com virgens (44:54 e 55:70). Também teremos à disposição "mancebos eternamente jovens", que, de tão belos, são comparados a "pérolas" (56:17, 76:19).

É o velho truque das religiões de tentar controlar as pessoas pedindo que se comportem agora em troca de uma eternidade de prazeres. Não deixa de ser irônico que a arma usada para combater a devassidão seja um hedonismo de segunda ordem. Por essa lógica, o problema com o pecado não é que ele seja intrinsecamente mau, mas que dura pouco.

Texto publicado originalmente com o título breves pecados.

Homofóbicos sentem excitação com gays, revela pesquisa






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