domingo, 21 de fevereiro de 2016

Notas de um cético: o dia em que comecei a desacreditar em Deus

Cresci em família católica, mas eu não ia com frequência à missa dominical. Meus pais, no início do casamento, moravam com meus avós maternos — Augusto, imigrante italiano, e Georgina, brasileira com sangue de índio.

Do meu lado, um
Jesus ameaçador
e atento me vigia
Meus pais e avós não eram carolas, graças a Deus, mas mantinham na sala um quadro de Jesus com o coração sangrento à mostra, o que me dava aflição. Até hoje acho a representação do Sagrado Coração de Jesus de mau gosto. Os cardiologistas devem gostar.

Quando tinha 14 anos, talvez um ou dois anos a menos, eu fazia questão de ir à missa de domingo das 9h30 da Igreja de São Sebastião (de São Carlos, SP).

Era a missa dos jovens, e eu, com minha melhor roupa, cabelo bem penteado e hormônios em ebulição, ia à igreja para ver as meninas.

Se minha memória não está falhando, o padre rezava a missa em latim, sem ninguém entender. Era uma coisa maluca.

A certeza que tenho é que o padre passava a maior parte do tempo de costas, não podendo, portanto, vigiar a inquietude dos jovens.

Isso me dava a liberdade de olhar para um lado e para outro, dar uma esticadinha de pescoço em direção à moreninha vestida de branco ou à ruivinha com jeito de sapeca. E eu recebia alguns olhares de volta.

Nesta época eu já não acreditava que Deus estava me olhando o tempo todo, com o propósito de me flagrar em algum pecado grave, para, quando morresse, me mandar ao inferno.

A onisciência divina já me parecia absurda, mas eu tive de superar um trauma para chegar a essa conclusão.

Anos antes, no catecismo, uma freirinha de hábito cinza me deixou em estado de choque ao dizer que Deus estava em todos os lugares, até dentro do banheiro, dia e noite, para condenar os pecadores ao fogo eterno.

Fiquei abalado não porque eu fosse um moleque levado, de jogar pedra na vidraça dos outros, de apertar a companhia do vizinho e sair correndo, de matar passarinho com estilingue.

O que eu temia era a possibilidade de vir a cometer um pecado imperdoável e ter de passar a eternidade em uma fogueira, sendo cutucado pelo tridente do diabo. Tive pesadelos. Uma noite acordei gritando que não queria ir para o inferno.

Eu já estava meio atordoado no catecismo porque não conseguia entender que três pessoas pudessem ser uma única, embora continuassem sendo as três, e que o Pai era o seu próprio filho, e o filho, o pai.

“Dá pra repetir?”, perguntei para a freirinha. Quando me explicou de novo, suspeitei que nem ela sabia direito o que era a tal de Santíssima Trindade.

Eu só passei a dormir tranquilo quando deixei de dar importância àquela história de que Deus está em todos os lugares o tempo todo.

No último dia do catecismo, perto da data em que eu me transformaria em um “verdadeiro cristão”, a freirinha disse com ênfase que eu jamais deveria mastigar a hóstia consagrada, porque se tratava do corpo de Jesus.

Ela explicou que, no altar, diante do padre, eu deveria colocar a língua para fora para receber a hóstia e esperasse que ela lentamente se dissolvesse.

No dia da minha primeira comunhão, foi uma festa. Todos de casa colocaram perfume e roupa nova, e eu, com calça e camisas brancas, pela primeira vez e única na vida usei uma charmosa gravata borboleta preta.

No caminho para igreja, passamos em um estúdio onde tirei a fotografia oficial da primeira comunhão. Do meu lado, como se pode ver acima, havia uma imagem intimidatória do Sagrado Coração de Jesus, justamente ele.

Hoje eu digo que a minha primeira comunhão foi, na verdade, a minha primeira descomunhão. Explico.

Ao receber a hóstia, no trajeto de volta para o banco da igreja, contrariando a freirinha, dei uma mordida de leve no corpo de Cristo, para ver se saía sangue. Não saiu. Estou com a tentação de dizer que também tinha a expectativa de ouvir um gemido, um "ai" de Jesus, mas isso não é verdade.

De qualquer forma, foi naquele momento em que ocorreu o primeiro registro da minha tomada de consciência de que Deus não existe.

Com foto de arquivo pessoal.

Notas de um cético





Notas de um cético: ninguém deveria se ajoelhar

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