Paulopes

Religião, ateísmo, teoria da evolução e astronomia

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sábado, 18 de outubro de 2014

Deus não está morto porque conto infantil nunca morre

"Deus mata tudo o que lhe resiste: a razão, a inteligência,
o espírito critico. O resto segue-se por reação em cadeia"
 de Michel Onfray
trecho do livro Tratado de Ateologia

A odisseia dos espíritos fortes

1 - Deus ainda respira

Suspiro da criatura
opressora vai durar
tanto quanto a criatura
 oprimida, para sempre
Deus está morto? Ainda é preciso ver. Uma tal boa notícia teria produzido efeitos solares dos quais continuamos esperando, e em vão, a menor prova. No lugar e local de um campo fecundo descoberto por tal desaparecimento constata-se antes o niilismo, o culto do nada, a paixão pelo nada, o gosto mórbido pelo noturno dos fins de civilizações, o fascínio pelos abismos e pelos buracos sem fundo em que se perde a alma, o corpo, a identidade, o ser e todo interesse por o que quer que seja. Quadro sinistro, apocalipse deprimente.

A morte de Deus foi um artifício ontológico, número de mágica consubstancial a um século XX que vê a morte por toda parte: morte da arte, morte da filosofia, morte da metafísica, morte do romance, morte da tonalidade, morte da política. Que se decrete hoje então a morte dessas mortes fictícias! Essas notícias falsas em outros tempos serviam a alguns para cenografar paradoxos antes da virada de casaca metafísica. A morte da filosofia permitia livros de filosofia, a morte do romance gerava romances, a morte da arte obras de arte, etc. A morte de Deus, por sua vez, produziu sagrado, divino, religioso, seja o que melhor for. Hoje nadamos nessa água lustral.

Evidentemente, o anúncio do fim de Deus foi ainda mais tonitruante por ser falso. Trombetas embocadas, anúncios teatrais, rufaram tambores alegrando-se cedo demais. A época desaba sob as informações veneradas como a palavra autorizada de novos oráculos e a abundância se faz em detrimento da qualidade e da veracidade: jamais tantas informações falsas foram celebradas como verdades reveladas. Para que a morte de Deus se verificasse, seria preciso haver certezas, indícios, peças convincentes. Ora, falta tudo isso.

Quem viu o cadáver? Com exceção de Nietzsche, e olhe lá. À maneira do corpo de delito em Ionesco, teríamos sentido sua presença, sua lei, ele teria invadido, empestado, fedido, teria se desfeito pouco a pouco, dia após dia, e não teríamos deixado de assistir a uma real decomposição também no sentido filosófico do termo. Em vez disso, o Deus invisível quando vivo continuou invisível mesmo morto. Produto publicitário. Ainda se esperam as provas. Mas quem as poderá dar? Que novo insensato para essa impossível tarefa?

Pois Deus não está morto nem moribundo, ao contrário do que pensam Nietzsche e Heine. Nem morto nem moribundo porque não mortal. Uma ficção não morre, uma ilusão não expira nunca, não se refuta um conto infantil. Nem o hipogrifo nem o centauro estão submetidos à lei dos mamíferos. Um pavão, um cavalo sim; um animal do bestiário mitológico não. Ora, Deus pertence ao bestiário mitológico, como milhares de outras criaturas repertoriadas em dicionários de inúmeras entradas, entre Deméter e Dioniso. O suspiro da criatura opressora durará tanto quanto a criatura oprimida, equivale a dizer para sempre.

Aliás, onde ele teria morrido? Em A gaia ciência? Assassinado em Sils-Maria por um filósofo inspirado, trágico e sublime, obsedante, selvagem, na segunda metade do século XIX? Com que arma? Um livro, livros, uma obra? Imprecações, análises, demonstrações, refutações? A golpes de aríete ideológico? A arma branca dos escritores? Sozinho, o assassino? Emboscado? Em bando: com o abade Meslier e Sade como avós tutelares? Não seria um Deus superior o assassino de Deus se ele existisse? E esse falso crime não estará mascarando um desejo edipiano, um desejo impossível, uma irreprimível aspiração vã a cumprir uma tarefa necessária para gerar liberdade, identidade e sentido?

Não se mata um sopro, um vento, um cheiro, não se mata um sonho, uma aspiração. Deus criado pelos mortais à imagem deles hipostasiada só existe para tornar possível a vida cotidiana apesar da trajetória de todos e cada um em direção ao nada. Enquanto os homens tiverem que morrer, uma parte deles não poderá suportar essa ideia e inventará subterfúgios. Não se assassina, não se mata um subterfúgio. Seria antes ele, até, a nos matar: pois Deus mata tudo o que lhe resiste. Em primeiro lugar a Razão, a Inteligência, o Espírito Crítico. O resto segue-se por reação em cadeia.

O último deus desaparecerá com o último dos homens. E com ele o temor, o medo, a angústia, essas máquinas de criar divindades. O terror diante do nada, a incapacidade de integrar a morte como um processo natural, inevitável, com o qual é preciso compor, diante do qual só a inteligência pode produzir efeitos, mas igualmente a negação, a ausência de sentido além daquele que damos, o absurdo a priori, esses são os feixes genealógicos do divino. Deus morto suporia o nada domesticado. Estamos a anos-luz de um tal progresso ontológico.


2 - O nome dos espíritos fortes

Individuo é dito ateu, e
 sempre da perspectiva
insultante de autoridade
preocupada em condenar
Deus durará, pois, tanto quanto as razões que o fazem existir; seus negadores também. Toda genealogia parece fictícia: não existe data de nascimento para Deus. Nem para o ateísmo prático. O discurso é outra coisa. Conjecturemos: o primeiro ateu afirma que não se deve crer em divindade. Duvidar coexiste com crer. O sentimento religioso provavelmente habita o mesmo indivíduo atormentado pela incerteza ou assombrado pela recusa. Afirmar e negar, saber e ignorar: um tempo para a genuflexão, outro para a rebelião, e isso em função das oportunidades de criar uma divindade ou de queimá-la.

Deus, portanto, parece imortal. Seus turiferários ganham nesse ponto. Mas não pelas razões que imaginam, pois a neurose que leva a forjar deuses resulta do movimento habitual dos psiquismos e dos inconscientes. A geração do divino coincide com o sentimento angustiado diante do vazio de uma vida que termina. Deus nasce dos enrijecimentos, das rigidezes e imobilidades cadavéricas dos membros da tribo. Diante da visão do corpo morto, as ilusões e exalações de que os deuses se nutrem adquirem cada vez mais consistência. Quando uma alma se abate diante da frieza de um ser amado, a negação se segue e transforma esse fim em começo, essa chegada em início de uma aventura. Deus, o céu, os espíritos comandam a dança para evitar a dor e a violência do pior.

E o ateu? A negação de Deus e dos além-mundos compartilha provavelmente a alma do primeiro homem que crê. Revolta, rebelião, recusa da evidência, enrijecimento diante dos decretos do destino e da necessidade, a genealogia do ateísmo parece tão simples quanto a da crença. Satã, Lúcifer, o portador de claridade, o filósofo emblemático das Luzes, aquele que diz não e não quer submeter-se à lei de Deus, evolui como contemporâneo desse período de partos. O Diabo e Deus funcionam como frente e verso da mesma medalha, como teísmo e ateísmo.

Mesmo assim, a palavra não é antiga na história e sua acepção precisa da posição daquele que nega a existência de Deus se não como função fabricada pelos homens para tentar sobreviver apesar da inevitabilidade da morte tardia no Ocidente. Certamente, o ateu existe na Bíblia [Salmos (X, 4 e XIV, 1) e Jeremias (V, 12)], mas na Antiguidade ele qualifica às vezes, até com freqüência, não aquele que não crê em Deus, mas aquele que se recusa aos deuses dominantes do momento, a suas formas socialmente adotadas. Por muito tempo o ateu caracteriza a pessoa que crê num deus próximo, estranho, heterodoxo. Não o indivíduo que esvazia o céu, mas aquele que o povoa com suas próprias criaturas.

De modo que o ateísmo serve politicamente para afastar, identificar ou atacar o indivíduo crente em um outro deus que não aquele que a autoridade do momento e do lugar invoca para assentar seu poder. Pois Deus invisível, inacessível, portanto silencioso a respeito do que se possa fazê-lo dizer ou endossar, não se rebela quando alguns se pretendem investidos por ele para falar, editar, agir em seu nome para o melhor e o pior. O silêncio de Deus permite a tagarelice de seus ministros que usam e abusam do epíteto: quem não crê no Deus deles, portanto neles, torna-se imediatamente ateu. Portanto o pior dos homens: o imoralista, o detestável, o imundo, a encarnação do mal. Deve ser preso imediatamente ou torturado, deve ser morto.

Difícil então dizer-se ateu. O indivíduo é dito ateu, e sempre na perspectiva insultante de uma autoridade preocupada em condenar. A construção da palavra aliás a define: a-teu. Prefixo de privação, a palavra supõe uma negação, uma falta, um buraco, um procedimento de oposição. Nenhum termo existe para qualificar positivamente quem não se conforma às quimeras além dessa construção linguística que exacerba a amputação: a-teu pois, mas também descrente, a-gnóstico, incréu, ir-religioso, in-crédulo, a-religioso, ím-pio (o a-deus não corresponde à designação!) e todas as palavras que derivam dessas: irreligião, descrença, impiedade, etc. Nada para significar o aspecto solar, afirmador, positivo, livre, forte do indivíduo instalado além do pensamento mágico e das fábulas.

O ateísmo está ligado então a uma criação verbal dos deícolas. A palavra não decorre de uma decisão voluntária e soberana de uma pessoa que se define por esse termo na história. Ateu qualifica o outro que recusa o deus local quando todos ou a maioria creem nele. Pois o exercício teológico de gabinete sempre se apóia em milícias armadas. Polícias existenciais e soldados ontológicos que dispensam de refletir e convidam rapidamente a crer e com freqüência a se converter.

Baal e Javé, Zeus e Alá, Rá e Wotan, mas também Manitu devem seus patronímicos à geografia e à história: aos olhos da metafísica que os torna possíveis eles dão nomes diferentes a uma única e mesma realidade fantasística. Ora, nenhum é mais verdadeiro que o outro pois todos se movem num panteão de alegres vadios inventados onde se banqueteiam Ulisses e Zaratustra, Dioniso e Dom Quixote, Tristão e Lancelote do Lago, figuras mágicas como a Raposa dos dogons ou os loas vodus.


3 - Os efeitos da antifilosofia


Cristãos combatem
com violência liberdade
de pensar e reflexão
 desligada dos dogmas
Em falta de nome para qualificar o inqualificável, para nomear o inominável, o louco que tem a audácia de não crer, fiquemos pois com ateu. Perífrases ou palavras existem, mas os cristícolas as forjaram e as lançaram no mercado intelectual com a mesma vontade depreciadora. Assim os espíritos fortes tão freqüentemente fustigados por Pascal ao longo de papeluchos costurados na aba de seu casaco, ou ainda os libertinos, até mesmo os livre-pensadores ou, entre nossos amigos belgas de hoje, os partidários do livre exame.

A antifilosofia corrente do século XVIII na face sombria das Luzes que erradamente esquecemos e que no entanto deveríamos colocar sob os faróis da atualidade para mostrar o quanto a comunidade cristã não recua diante de nenhum meio, inclusive os moralmente mais indefensáveis, para desacreditar o pensamento dos temperamentos independentes que não têm a felicidade de se conformar às suas fábulas, a antifilosofia, então, combate com violência inominada a liberdade de pensar e a reflexão desligada dos dogmas cristãos.

Daí, por exemplo, o trabalho do padre Garasse, jesuíta sem fé nem lei que inventa a propaganda moderna em pleno "Grand Siècle" com La Doctrine curieuse des Beaux esprits de ce temps, ou prétendus tels [A curiosa doutrina dos belos espíritos deste tempo, ou que assim se pretendem] (1623), volume pletórico de mais de mil páginas no qual ele calunia a vida dos filósofos livres apresentados como devassos, sodomitas, ébrios, luxuriosos, glutões, pedófilos. O mesmo ministro da Propaganda jesuíta comete uma Apologie pour son livre contre les athéistes et Libertins de notre siècle [Apologia a seu livro contra os ateístas e libertinos de nosso século] no ano seguinte. Garasse acrescenta uma camada sobre o mesmo princípio, nem um pouco asfixiado pela mentira, pela calúnia, pela vilania e pelo ataque ad hominem. O amor ao próximo não conhece limites.

De Epicuro, caluniado quando vivo pelos carolas e poderosos da época, aos filósofos livres que, sem por isso renegar o cristianismo, não acham que a Bíblia constitui o horizonte insuperável de toda inteligência, o método produz seus efeitos ainda hoje. Além de alguns filósofos atacados e fuzilados por Garasse ainda não se terem recuperado e estarem estagnados num esquecimento deplorável, de alguns padecerem uma reputação equivocada de imoralistas e de pessoas infreqüentáveis, e de as calúnias atingirem também suas obras, o devir negativo dos ateus está encerrado por séculos. Em filosofia, libertino constitui ainda e sempre uma qualificação depreciativa e polêmica que proíbe qualquer pensamento sereno e digno desse nome.

Por causa do poder dominante da antifilosofia na historiografia oficial do pensamento, peças inteiras de uma reflexão vigorosa, viva, forte, mas anticristã ou irreverenciosa, ou simplesmente independente da religião dominante, permanecem ignoradas, inclusive com freqüência pelos profissionais da filosofia, fora um punhado de especialistas. Quem, para falar apenas no "Grand Siècle", leu Gassendi, por exemplo? Ou La Mothe Le Vayer? Ou Cyrano de Bergerac, o filósofo, não a ficção? Tão poucos. E no entanto Pascal, Descartes, Malebranche e outros detentores da filosofia oficial são impensáveis sem o conhecimento dessas figuras que trabalharam pela autonomia da filosofia com relação à teologia, no caso à religião judeu-cristã.


4 -A teologia e seus fetiches

Os que adoram tudo e
qualquer coisa justificam
suas violências
contra os sem deus
A penúria de palavras positivas para qualificar o ateísmo e a desconsideração dos epítetos de substituição possíveis vão de par com a abundância do vocabulário para caracterizar os crentes. Não há uma única variação sobre esse tema que não disponha de sua palavra para qualificá-la: teísta, deísta, panteísta, monoteísta, a que se pode acrescentar animista, totemista, fetichista ou ainda, diante das cristalizações históricas, católicos e protestantes, evangélicos e luteranos, calvinistas e budistas, xintoístas e muçulmanos, xiitas e sunitas, é claro, judeus e testemunhas-de-jeová, ortodoxos e anglicanos, metodistas e presbiterianos, o catálogo não tem fim.

Uns adoram as pedras das tribos mais primitivas aos muçulmanos de hoje que giram em torno do bétilo da Caaba, outros a lua ou o sol, alguns um Deus invisível, impossível de representar sob pena de idolatria, ou ainda uma figura antropomórfica, branca, masculina, ariana evidentemente. Outro vê Deus em toda parte, como panteísta rematado, um outro, adepto da teologia negativa, em lugar nenhum, uma vez é adorado coberto de sangue, coroado de espinhos, cadáver, outra numa haste de capim ao modo oriental xinto: não há nenhuma facécia inventada pelos homens que não tenha sido colocada a serviço de ampliar o campo dos possíveis divinos.

Aos que ainda duvidam das extravagâncias possíveis das religiões em matéria de suportes, lembremos a dança da urina entre os zunis do Novo México, a confecção de amuletos com os excrementos do grande lama do Tibete, a bosta e a urina de vaca para as abluções de purificação entre os hinduístas, o culto de Stercorius, Crepitus e Cloacine entre os romanos, respectivamente divindades dos lixos, do peido e dos esgotos, as oferendas de estrume feitas a Siva, Vênus assíria, o consumo dos próprios excrementos por Suchiquecal, deusa mexicana mãe dos deuses, determinada prescrição divina de utilizar as matérias fecais humanas para cozer alimentos no livro de Ezequiel e outros meios impenetráveis ou maneiras singulares de manter uma relação com o divino e o sagrado.

Diante desses nomes múltiplos, dessas práticas sem fim, dessas particularidades infinitas na maneira de conceber Deus, de pensar a ligação com ele, diante desse dilúvio de variações sobre o tema religioso, em presença de tantas palavras para dizer a incrível paixão crente, o ateu compõe com esse único e pobre epíteto para o desacreditar! Os que adoram tudo e qualquer coisa, os mesmos que, em nome de seus fetiches, justificam suas violências e suas guerras desde sempre contra os sem-deus, esses portanto reduzem o espírito forte a ser etimologicamente apenas um indivíduo incompleto, amputado, fragmentado, mutilado, uma entidade à qual falta Deus para ser verdadeira.

Os adeptos de Deus dispõem até de uma disciplina inteira dedicada a examinar os nomes de Deus, seus feitos e gestos, seus ditos memoráveis, seus pensamentos, suas palavras, pois ele fala!, e suas ações, seus pensadores afiançados, seus profissionais, suas leis, seus turiferários, seus defensores, seus sicários, seus dialetas, seus retores, seus filósofos, seus capatazes, seus servidores, seus representantes na terra, suas instituições induzidas, suas idéias, seus ditames e outras bazófias: a teologia. A disciplina do discurso sobre Deus.

Os raros momentos na história ocidental em que o cristianismo foi corrompido (em 1793, por exemplo) produziram algumas atividades filosóficas novas, portanto geraram algumas palavras inéditas rapidamente deixadas de lado. Fala-se ainda de descristianização, certamente, mas como historiador, para denominar o período da Revolução Francesa durante o qual os cidadãos transformam as igrejas em hospitais, em escolas, em casas para jovens, em que os revolucionários substituem as cruzes centrais por bandeiras tricolores e os crucifixos de madeira morta por árvores bem vivas. O athéiste dos Essais [Ensaios] de Montaigne, os attaystes das Lettres [Cartas] (CXXXVII) de Monluc e o athéistique de Voltaire logo desaparecem. O athéiste da Revolução Francesa também.


5 - Os nomes da infâmia

Homens de Deus
 apelam contra ateus
 com a cólera
de suas fantasias
A pobreza do vocabulário ateísta explica-se pela indefectível denominação histórica dos adeptos de Deus: eles dispõem dos plenos poderes políticos há mais de quinze séculos, a tolerância não é sua principal virtude e eles lançam mão de tudo para tornar a coisa impossível, portanto a palavra. "Ateísmo" data de 1532. Do ponto de vista cristão, oficialmente ateu passou a existir no século II da era comum entre os cristãos que denunciam e estigmatizam os atheos: os que não creem em seu deus ressuscitado no terceiro dia. Daí a concluir que esses indivíduos de espírito não obstruído pelas histórias infantis não seguem deus nenhum é apenas um passo. De modo que os pagãos — eles cultuam os deuses do campo, a etimologia confirma — passam por negadores dos deuses, depois de Deus. O jesuíta Garasse representa Lutero como ateu (!), Ronsard faz o mesmo com os huguenotes.

A palavra vale como insulto absoluto, o ateu é o imoralista, o amoral, a personagem imunda da qual se torna condenável querer saber mais ou estudar os livros uma vez lançado o epíteto. A palavra basta para impedir o acesso à obra. Funciona como a engrenagem de uma máquina de guerra lançada contra tudo o que não funciona no registro da mais pura ortodoxia católica, apostólica e romana. Ateu, herege, afinal é tudo uma só coisa. Que acaba por representar muita gente!

Muito cedo Epicuro é obrigado a enfrentar acusações de ateísmo. Ora, nem ele nem os epicuristas negam a existência dos deuses: compostos de matéria sutil, numerosos, instalados nos intermundos, impassíveis, indiferentes ao destino dos homens e à marcha do mundo, verdadeiras encarnações da ataraxia, ideias da razão filosófica, modelos suscetíveis de gerar uma sabedoria na imitação, os deuses do filósofo e de seus discípulos existem mesmo, além do mais em quantidade. Mas não como os da cidade-Estado grega que convidam por meio de seus sacerdotes a se dobrar às exigências comunitárias e sociais. Este é seu único erro: sua natureza anti-social.

A historiografia do ateísmo — rara, parcimoniosa e bastante ruim — comete pois um erro ao datá-lo dos primeiros tempos da humanidade. As cristalizações sociais invocam a transcendência: a ordem, a hierarquia, o poder do sagrado. A política, a cidade-Estado podem funcionar tanto mais facilmente quanto invocam o poder vingador dos deuses supostamente representados na terra pelos dominantes que, muito oportunamente, dispõem dos comandos.

Embarcados numa empreitada de justificação do poder, os deuses (ou Deus) passam por ser os interlocutores privilegiados dos chefes de tribo, dos reis e dos príncipes. Essas figuras terrestres afirmam deter seu poder dos deuses que o confirmariam com ajuda de sinais evidentemente decodificados pela casta dos sacerdotes, também ela interessada nos benefícios do exercício pretensamente legal da força. O ateísmo torna-se então uma arma útil para lançar este ou aquele, bastando que ele resista ou refugue um pouco, nas prisões, nas masmorras, até mesmo na fogueira.

O ateísmo não começa com aqueles que a historiografia oficial condena e identifica como tais. O nome de Sócrates não pode figurar decentemente numa história do ateísmo. Nem o de Epicuro e os dos seus. Tampouco o de Protágoras, que se limita a afirmar em Sobre os deuses que a respeito deles nada pode concluir, nem sua existência, nem sua inexistência. O que, pelo menos, define um agnosticismo, uma indeterminação, até um ceticismo, se quisermos, mas certamente não um ateísmo, que supõe uma franca afirmação da inexistência dos deuses.

O Deus dos filósofos com freqüência entra em conflito com o de Abraão, de Jesus e de Maomé. Antes de tudo porque o primeiro procede da inteligência, da razão, da dedução, do raciocínio, depois porque o segundo supõe antes o dogma, a revelação, a obediência, devido a conluio entre poderes espiritual e temporal. O Deus de Abraão qualifica antes o de Constantino, depois dos papas ou dos príncipes guerreiros muito pouco cristãos. Não tem muita coisa a ver com as construções extravagantes montadas com causas incausadas, com primeiros motores imóveis, ideias inatas, harmonias preestabelecidas e outras provas cosmológicas, ontológicas ou psicoteológicas.

Muitas vezes qualquer veleidade filosófica de pensar Deus fora do modelo político dominante torna-se ateísmo. Assim, quando a Igreja corta a língua do padre Giulio Cesare Vanini, enforca-o e depois o manda para a fogueira em Toulouse em 19 de fevereiro de 1619, ela assassina o autor de uma obra cujo título é: "Anfiteatro da eterna Providência divino-mágica, cristiano-física e não menos astrológico-católica, contra os filósofos, os ateus, os epicuristas, os peripatéticos e os estoicos" (1615).

A não ser que não se faça nenhum caso desse título, um equívoco, tendo em vista pelo menos seu comprimento explícito, é preciso compreender que esse pensamento oximórico não rejeita a providência, o cristianismo, o catolicismo, mas em contrapartida rejeita nitidamente o ateísmo, o epicurismo e outras escolas filosóficas pagãs. Ora, tudo isso não compõe um ateu, motivo pelo qual ele é morto, porém mais provavelmente um tipo de panteísta eclético. Seja como for, herege porque heterodoxo.

Espinosa, também ele panteísta, e com inteligência inigualada, vê-se igualmente condenado por ateísmo, ou seja: falta de ortodoxia judaica. Em 27 de julho de 1656, os parnassim sediados no mahamad, autoridades judias de Amsterdam, leem em hebraico, diante do arco da sinagoga, no Houtgracht, um texto de violência assustadora: acusam-no de heresias horríveis, atos monstruosos, opiniões perigosas, má conduta, e em conseqüência disso um herem é pronunciado e jamais anulado!

A comunidade profere palavras de extrema brutalidade: excluído, expulso, execrado, maldito dia e noite, no sono e na vigília, entrando e saindo de casa. Os homens de Deus apelam para a cólera de sua fantasia e para sua maldição desenfreada sem limites no tempo e no espaço. Para completar o presente, os parnassim querem que o nome de Espinosa seja apagado da superfície do planeta e para sempre. Não deu certo.

Então os rabinos, adeptos teóricos do amor ao próximo, acrescentam a essa excomunhão a proibição de que qualquer pessoa tenha relações escritas ou verbais com o filósofo. Além disso, ninguém tem o direito de lhe prestar serviço, de se aproximar dele a menos de dois metros ou de permanecer sob o mesmo teto que ele. Proibido, é claro, ler seus escritos: na época Espinosa tem vinte e três anos, ainda não publicou nada. A Ética será publicada postumamente vinte e um anos depois, em 1677. Hoje ele é lido em todo o planeta.

Onde está o ateísmo de Espinosa? Em lugar nenhum. É inútil procurar em sua obra completa uma única frase que afirme a inexistência de Deus. Certamente, ele nega a imortalidade de uma alma e afirma a impossibilidade de castigo ou recompensa post mortem; enuncia a ideia de que a Bíblia é uma obra composta por diversos autores e provém de uma composição histórica, portanto não revelada; não se conforma de modo nenhum à noção de povo eleito e o afirma claramente no Tratado teológico-político; ensina uma moral hedonista da alegria para além do bem e do mal; não se conforma ao ódio judeu-cristão a si mesmo, ao mundo e ao corpo; embora judeu, encontra qualidades filosóficas em Jesus. Mas nada disso constitui um negador de Deus, um ateu.

A lista dos infelizes mortos em razão de ateísmo na história do planeta e que eram sacerdotes, crentes, praticantes, sinceramente convictos da existência de um Deus único, católicos, apostólicos e romanos; a dos adeptos do Deus de Abraão ou de Alá também mortos em quantidade incrível por não professarem uma fé de acordo com as normas e as regras; a dos anônimos nem mesmo rebeldes ou adversos aos poderes que invocavam monoteísmo, nem refratários, tampouco reticentes, todas essas contabilidades macabras atestam: o ateu, antes de qualificar o negador de Deus, serve para perseguir e condenar o pensamento do indivíduo liberto, mesmo que do modo mais ínfimo, da autoridade e da tutela social em matéria de pensamento e de reflexão. O ateu? Um homem livre diante de Deus, inclusive para logo negar sua existência.

Michel Onfray é filósofo francês e ateu militante. O título e intertítulos em itálicos deste texto foram escritos pelo editor do site.





Trecho do livro 'Religião para Ateus', de Alain de Botton


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