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sábado, 7 de junho de 2014

Teoria de Darwin pode ajudar a desvendar mistérios do universo

Cientistas aplicam a lógica da teoria da evolução aos  universos
por Alexandre Versignassi e Rodrigo Rezende
para Superinteressante

E Charles Darwin criou o homem. Ou, pelo menos, inventou o que hoje nós conhecemos como homem. Antes dele, éramos o centro do Universo, a obra sublime da criação. Agora somos apenas mais uma entre milhões e milhões de espécies, um bicho de origem nada especial. Nada mesmo: a Teoria da Evolução deixou claro que todas as formas de vida que já pisaram na Terra são filhas da mesma tataravó – a história de como essa senhora, uma simples molécula, virou tudo o que existe.

Assim, mostrando como a vida evolui, Darwin dispensou Deus do cargo de criador. E agora seus seguidores do século 21 querem fazer algo ainda mais chocante: mostrar que não passamos de escravos a serviço dos verdadeiros donos deste planeta. Ah, tem mais: a teoria de Darwin pode ter desvendado o segredo dos buracos negros. E mostrado não só que deve haver vida fora da Terra mas em universos paralelos também. Quer saber como? Então vamos embarcar no velho Beagle. Primeira escala: o inferno.

O inferno de Darwin

O solo repleto de lava negra estava coberto de lagartos e tartarugas mons­truosas. Caranguejos escarlates corriam por todos os lados. O calor era tão forte que atravessava as botas e queimava os pés. Cercado por uma vegetação composta de cactos de 3 metros de altura, girassóis do tamanho de árvores e arbustos desfolhados, Darwin escrevia em seu diário: “A superfície seca e crestada, aquecida pelo sol do meio-dia, deixava o ar abafado, quente como em um forno. Tínhamos a impressão de que até os arbustos cheiravam mal”.

“Esse lugar é o inferno!”, dizia Robert FitzRoy, capitão do navio de pesquisas Beagle, que levara o jovem Charles Dar­win às Galápagos, um arquipélago no oceano Pacífico. FitzRoy queria um cavalheiro a bordo para lhe fazer companhia. E o abonado Darwin, de 22 anos, acabou escolhido, principalmente porque estava estudando para virar padre – mas também porque FitzRoy gostou do formato do nariz dele, que “sinalizava profundidade de caráter”. O capitão tinha dois objetivos para a viagem. Um a serviço do Império Britânico: mapear a costa da Patagônia. Outro, pessoal: encontrar provas científicas de que o mundo tinha sido criado de acordo com o que está na Bíblia. Mal sabia ele que o assassino de Deus estava a bordo.

A paisagem infernal das Galápagos, onde aportaram em 15 de setembro de 1835, após quase 4 anos de expedição, era um paraíso para Darwin. Ele pintou e bordou com tudo o que pôde naquele lugar perdido no tempo. Pegou carona nas tartarugas (“Era difícil manter o equilíbrio.”), tirou onda com as iguanas (“Ela ficou olhando para mim como se quisesse dizer: Por que você puxou a minha cauda?”) e encheu o bucho de iguarias exóticas (“Tatu é um prato excelente quando assado em sua carapaça.”). De quebra tirou de lá a inspiração para a idéia mais importante e assustadora da história da ciência.

O gatilho para esse pensamento veio quando ele percebeu diferenças instigantes entre os bicos de uma espécie de passarinho das Galápagos, os tentilhões. Em uma ilha eles tinham bicos grossos, bons para quebrar nozes. Em outra, longos e finos, ideais para arranjar comida em frestas. Darwin imaginou que aquelas aves deviam ter se adaptado de algum jeito. Por mágica? Não: por um processo de seleção que levou gerações. Em ambas as ilhas teriam nascido pássaros de bico fino e de bico grosso. Naquela onde havia nozes para comer, só estes últimos teriam sobrevivido. A partir desse raciocínio simples, nascia um monstro.

De volta à Inglaterra, aos 27 anos, Dar­win estudou a fundo as 5 436 carcaças, peles e ossos que colecionara na viagem do Beagle e concluiu que TODAS as espécies do mundo tinham passado por processos de adaptação equivalentes ao dos tentilhões. Bem devagarzinho.

Imagine as asas dos pássaros, por exemplo. Pela lógica de Darwin, elas não nasceram prontas. Em algum ninho dos ancestrais dos pássaros, que não voavam, surgiu um mutante, um “patinho feio”, com uma pequena membrana que lhe permitia planar de vez em quando. Essa característica deu-lhe alguma vantagem na luta pela sobrevivência. E o bicho deixou mais descendentes que seus irmãos. A prole dele, que carregava a mesma mutação, também fez mais filhos, e por aí foi. Com o tempo, novos mutantes, novos patinhos feios, foram nascendo com asas cada vez melhores. E no fim das contas um novo tipo de animal se consolidava no planeta: os pássaros. Tudo às custas da extinção de outros bichos parecidos, só que menos adaptados à dureza da vida. “A produção de animais superiores é conseqüência da natureza, da fome e da morte”, escreveu Darwin.

Nós mesmos, imaginou o inglês, não podíamos estar de fora. A diferença é que a evolução para a forma que temos hoje foi a partir de “macacos” (na verdade, animais parecidos com macacos) que foram desenvolvendo cérebros cada vez maiores, do mesmo jeito que os pássaros fizeram com as asas. E esses “macacos” vieram de outros bichos... Hoje sabemos de quem: de peixes mutantes que nasceram com a capacidade de respirar fora da água – nossos pulmões, por exemplo, vieram direto desses animais, que viviam em pântanos lamacentos.

Aí não tinha mais jeito. Darwin já sabia que não éramos “a imagem e semelhança de Deus”. Agora responda: o que você faria ao perceber que na sua cabeça existe uma idéia que pode abalar as crenças mais profundas de quase toda a humanidade? Darwin sentiu o peso, e ficou aterrorizado. Demorou mais de 30 anos para publicar a ideia em seu livro "A Origem das Espécies", de 1859. E ainda assim o livro só saiu quando ele leu um artigo de Alfred Russel Wallace, um biólogo inglês. O texto continha uma teoria bem similar à da seleção natural, porém menos abrangente. Com medo de ser passado para trás, Darwin autorizou seu amigo Thomas Hux­ley a expor a Teoria da Evolução ao mundo científico, pois ele mesmo não teve coragem. “Foi como confessar um assassinato”, escreveu.

Por isso mesmo a teoria demorou para virar unanimidade entre os acadêmicos. Ela só foi aceita para valer quando outros cientistas, já no século 20, a refinaram com base na genética – a forma como os pais transmitem suas características aos filhos. Esse renascimento deu um gás novo à Teoria da Evolução. E na década de 1930 começava uma nova revolução: o neodarwinismo. Com ele, uma ideia aterradora começou a sair do forno: a de que você não passa de um robô. Era a Teoria do Gene Egoísta, que ganhou corpo nos anos 70. Para entendermos melhor essa história, vamos fazer outra viagem no tempo. Desta vez para uma época bem anterior à do Beagle. Mas com um destino igualmente infernal.

Origem das espécies 2.0

Conceito do gene egoísta
surgiu com o neodarwinistas
Planeta Terra, 4 bilhões de anos atrás. Um mundo adolescente, infestado por vulcões, meteoritos e tempestades violentas. No mar desse inferno, moléculas de carbono encontraram um porto seguro. E começaram a se juntar, formando cadeias cada vez mais longas e complexas. Uma hora, como quem não quer nada, apareceu um estranho nesse ninho. Um acidente da natureza. Era uma molécula capaz de se replicar, de sugar matéria orgânica do ambiente e usar como matéria-prima para produzir cópias dela mesma. Motivo? Nenhum: ela fazia réplicas por fazer e pronto. Vai entender...

Essa aparição foi algo tão improvável quanto se esta revista, a Superinteressante  (que também é feita de cadeias de carbono), comesse seus dedos agora e, a partir dos átomos da sua carne, pele e ossos, construísse uma cópia dela mesma. Improvável, mas foi exatamente o que aconteceu naquele dia. E não havia nada ali para conter o apetite da monstruosa molécula.

Ainda mais porque arranjar matéria-prima, ou seja, “comida”, nesse oceano primitivo era fácil: bastava “pescar” nutrientes na água. Assim ela cresceu e se multiplicou. Mas tinha um problema: nem sempre as réplicas saíam perfeitas. Às vezes acontecia um erro de cópia aqui, outro ali. Surgiam aberrações. “Um livro e tanto escreveria o capelão do Diabo sobre os trabalhos desastrados, esbanjadores, ineficientes e terrivelmente cruéis da natureza!”, escreveria Darwin sobre esse processo bilhões de anos depois.

Esses erros aconteciam bem de vez em quando: um a cada milhão de réplicas. Mas tempo é o que não falta nesse mundo. Então eles foram se acumulando mais e mais. Só que alguns não davam em aberrações. Muito pelo contrário. Algumas réplicas nasciam com uma mutação que as fazia se multiplicar mais em menos tempo. E não demorou para essas mutantes mais férteis dominarem o mar. Só isso já é um tipo de seleção natural. Mas a regra de Darwin só deu as caras para valer quando aconteceu o inevitável: o mundo ficou pequeno para tantos replicadores. Com a superpopulação, os ingredientes de que eles precisavam para fazer suas cópias rarearam. Era a primeira crise de fome no planeta.

A saída? Ir para a briga. Mas estamos falando de moléculas, que não têm lá muito poder de decisão. Foi aí que provavelmente surgiu uma mutação inédita, que permitia a algumas moléculas comer outros replicadores. Assim elas conseguiam eficiência total: arranjavam almoço e eliminavam rivais ao mesmo tempo. Mas o domínio não duraria para sempre. Com o tempo surgiram mutantes com capa protetora natural. Com essa armadura, dava para comer os rivais sem o risco de ser comido. Nasciam as primeiras células do mundo. “Os replicadores deixavam de meramente existir e começavam a fazer contêineres para eles, veículos para que pudessem continuar vivos. Os que sobreviveram foram os que construíram ‘máquinas de sobrevivência’ para si”, escreveu o mais notório dos neodarwinistas, o zoólogo Richard Dawkins, da Universidade de Oxford, na Inglaterra.

Não demorou para virem células mutantes ainda mais terríveis contra as rivais. Elas tinham o poder de juntar forças com outras células e atacar unidas. E de fazer cópias de si mesmas numa tacada só, como se todas fossem uma única molécula. Surgiam os primeiros seres multicelulares.

E eles ficaram cada vez mais complexos: suas células passaram a assumir funções distintas para operar sua máquina de sobrevivência. Faziam como soldados num tanque de guerra: umas ficavam a cargo da locomoção, na forma de nadadeiras; outras, dos “satélites” para encontrar comida (visão, olfato).

E o progresso nunca parou. Tanto que hoje boa parte dos replicadores vive em “robôs” imensos, feitos de milhares de trilhões de células. Agora os chamamos de genes, e eles estão dentro de nós. Somos sua máquina de sobrevivência.

O sentido da vida

Genes mutantes e as pressões da seleção natural fizeram essa obra esplêndida que você vê no espelho todas as manhãs. Uma caminhada e tanto. Mas uma coisa não mudou desde os tempos da primeira molécula replicadora. Aquele objetivo irracional continua intacto: tudo o que os genes querem é fazer cópias de si mesmos. Foi para isso que eles criaram nosso corpo e nossa mente. E agora nos comandam lá de dentro, por controle remoto, para que trabalhemos em nome de sua preservação. A razão da existência? Lutar para que os genes façam cópias deles mesmos do melhor jeito possível.

E, para os neodarwinistas, esse egoísmo dos genes é a chave para descobrir como a nossa mente funciona. O próprio Darwin tinha escrito, no final de "A Origem das Espécies": “Agora a psicologia se assentará sobre um novo alicerce”. Demorou, mas aconteceu. Uma nova ciência da mente ganhou terreno no final do século 20. Foi a psicologia evolucionista, que usa Darwin e a mecânica dos genes para entender o que se passa aí dentro da sua cabeça.

Premissa número 1 dessa ciência: a mente já nasce quase pronta. Ela não é uma folha em branco, em que qualquer coisa pode ser “escrita”, como muitos filósofos e cientistas sociais defendem. Do ponto de vista da psicologia evolucionista, não faz sentido dizer que a cultura molda o nosso comportamento. Ela afirma que sua mente foi forjada ao longo de toda a evolução. E que você vem ao mundo com todos os “softwares” instalados no “hardware” da sua cabeça. Seus desejos, sua personalidade e tudo o mais dependem desses programas mentais. Nossa margem de manobra é pequena. E tem outra: a mente humana ganhou os soft­wares que tem hoje nos últimos 200 000 anos, quando nossa espécie, o Homo sapiens, veio ao mundo. Passamos 97% desse tempo em bandos nômades, que viviam da caça e da coleta. Nossa mente, então, não passa de uma ferramenta da Idade da Pedra tentando se virar num mundo que não existe mais. Do ponto de vista dos nossos genes, ainda estamos no Paleolítico, uma época sem faculdade, carreira, dinheiro ou anticoncepcionais. Uma época em que só duas coisas realmente contavam:

Sexo e violência

Se ainda sobrou alguma coisa que você queria saber sobre sexo, mas não tinha coragem de perguntar, talvez a resposta dos evolucionistas sirva: ele é a forma que os genes arrumaram para melhorar as defesas da sua máquina de sobrevivência. Por exemplo: se você tem um sistema imunológico que não sabe se defender de algum vírus, e tudo o que você sabe fazer para se reproduzir são cópias de si mesmo, como aquelas primeiras células, seus rebentos vão ter esse problema. E o clã inteiro vai mor-rer no caso de um ataque.

Agora, se você combina seus genes com o de um ser imune ao tal vírus, a história é outra: teoricamente, só uma parte do clã morreria. E o resto continuaria passando seus genes adiante como se nada tivesse acontecido.

Ao criar esse tipo inovador de reprodução, a seleção natural tratou de dividir o trabalho entre dois tipos de fun­cionários especializados. Um teria a função de tentar pôr seus genes em qualquer máquina de sobrevivência que cruzasse seu caminho. O outro selecionaria entre esses primeiros quais têm os melhores genes para compartilhar e cuidaria da cria que os dois tivessem juntos. Em outras palavras, o mundo se dividia entre machos e fêmeas (em algumas espécies, os papéis se invertem: os filhotes ficam a cargo dos machos, então eles é que são os mais paquerados).

Enfim, ao ganhar o poder de decidir quais machos terão filhos e quais ficarão na prateleira, as fêmeas assumiram o controle da evolução na maioria das espécies. E, para a psicologia evolutiva, é isso que determina aquilo que mais importa na vida: a propagação dos nossos genes, coisa também conhecida como vida afetiva e sexual.

O sexo, hoje, tem pouca relação com o ato de fazer filhos. Você sabe. Nenhum adolescente pensa em engravidar 10 meninas quando vai viajar para o Carnaval. Mas os genes dele não fazem idéia de que existem camisinhas e tudo o mais, então deixam o rapaz com vontade de transar com 10 garotas e pronto. Se tudo der certo, esses genes poderão instalar-se no útero de um monte de meninas e construir um monte de bebês (várias máquinas de sobrevivência novinhas em folha!).

Do ponto de vista das fêmeas, a história é outra: transar com 10 sujeitos num feriado não vai “render” 10 filhos para os genes dela se instalarem. Vai dar é uma baita dor de cabeça. Os contraceptivos poderiam deixá-las livres para fazer sexo só pelo prazer com um monte de seres do sexo oposto, como qualquer homem faz (ou tenta fazer). Mas não. O cérebro delas evoluiu para selecionar os melhores parceiros, ter poucos (e bons) filhos, não para tentar a sorte com qualquer um. Sem falar que, do tempo dos nossos ancestrais caçadores-coletores até o século 20, sexo casual para elas era correr o risco de acabar com um bebê indesejado. Aí não tem ideologia liberal nem pílula que dê conta de superar esse “trauma” evolutivo.

Psicólogos da Universidade Stanford, nos EUA, checaram isso com uma experiência simples. Contrataram homens e mulheres atraentes para abordar estudantes e dizer: “Você gostaria de ir para a cama comigo hoje?” Nenhuma mulher aceitou. Já as garotas tiveram resultados melhores: 75% dos homens toparam no ato. Dos 25% restantes, a maioria pediu desculpas, explicando que tinha marcado de sair com a namorada. Pois é: do ponto de vista da seleção natural, uma bela fêmea disponível é um bem valioso demais para ser desperdiçado. Nenhum homem se surpreende com isso, mas para as mulheres a verdade da psicologia evolucionista pode soar assustadora: “O desejo de variedade sexual nos homens é insaciável. Quanto maior for o número de mulheres com quem um homem tiver relações, mais filhos ele terá [pelo menos é o que “pensam” os genes]. Então demais nunca é o bastante”, escreveu outro guru do neodarwinismo, o psicólogo Steven Pinker, da Universidade Harvard, nos EUA.

Esse apetite todo também ajuda a explicar as raízes de outro comportamento ancestral: a violência. Os despojos de guerra mais comuns nos conflitos tribais sempre foram as mulheres. Não é à toa que uma das lendas sobre a fundação de Roma, que aconteceu no século 8 a.C., celebra o dia em que os primeiros romanos atacaram uma tribo vizinha, a dos sabinos, e raptaram as mulheres deles para começar sua civilização. Não dá para não dizer que deu certo.

E esse é o ponto: às vezes a violência é, sim, o melhor jeito de conseguir alguma coisa. Então não há mistério para a psicologia evolucionista: como a violência funcionou ao longo da história, está impregnada nos nossos genes. “Os bebês só não matam uns aos outros porque não lhes damos acesso a facas e revólveres”, disse o pediatra e psicólogo Richard Tremblay, da Universidade de Montreal, em uma entrevista à revista americana Science. A grande questão, ele completa, não é como as crianças aprendem a agredir, mas como elas aprendem a não fazer isso.

Intrigante, mas o psicólogo evolucionista Eduardo Ottoni, da USP, tem a resposta na ponta da língua: “A coisa mais complicada na vida de um primata é a capacidade de se virar em sociedades complexas. E se dar bem socialmente não é dar bifa em todo mundo”. Então nada melhor que um pouco de altruísmo com alguns para ficar bonito na foto. Os morcegos que o digam: entre as espécies que se alimentam de sangue, a vida não é fácil. Nem sempre dá para voltar pra caverna com o almoço na barriga. Mas os que conseguiram sangue durante o dia dão uma força aos malsucedidos, oferecendo a eles o sangue que sobrou na boca. Mas não tem conversa: quem não retribuir a oferta quando a situação for inversa fica com a reputação manchada e é banido do almoço grátis.

Mas em alguns casos somos altruístas sem querer nada em troca, nem inconscientemente. Isso acontece quando se trata das nossas famílias. E é aí que, para os neodarwinistas, fica mais clara a forma como os genes nos dominam.

Sangue do meu sangue

Evolução das espécies pode servir
de modelo da evolução do universos 
Você é uma máquina de sobrevivência dos seus genes, que o usam para se reproduzir. Ok. Mas o que aconteceria se esses genes tivessem construído um cérebro capaz de detectar cópias deles em outro corpo? O seguinte: eles também lutariam pela sobrevivência desse corpo. Fariam você se sentir aliviado com bem-estar dele.

O fato é que os genes construíram esse sistema de detecção. Todos os cérebros têm isso em algum grau. E o altruísmo puro é exatamente o que acontece quando dois animais são parentes próximos.

Existe uma chance em duas de que qualquer um dos seus genes esteja no seu irmão ou no seu filho. E 1 em 8 de que esteja em um primo. Sendo assim, o que o neodarwinismo diz é: você não “ama” seus filhos e irmãos. São seus genes que vêem neles maneiras de se perpetuar. E é por isso que você os ajuda. O geneticista John Haldane (1892-1964), um dos pioneiros do neodarwinismo, quis deixar isso claro quando lhe perguntaram se ele daria a vida por um irmão. A resposta: “Não. Mas daria por 2 irmãos ou 8 primos”.

O mesmo vale para quando nos apaixonamos. Se você ama alguém, quer ter filhos com essa pessoa, quer colocar seus replicadores ali e se esfolar para cuidar dos rebentos. Aí, para o futuro dos genes, sua vida só faz sentido se aquela pessoa existir. E o sentimento é tão poderoso que parece eterno enquanto dura.

Outra coisa que determina a hierarquia entre parentes é a expectativa de que eles se reproduzam. Daí os pais se sacrificarem mais pelos filhos do que os filhos pelos pais. Responda rápido: se você tivesse que decidir entre a morte de 20 estranhos e a vida do seu filho, ficaria com qual opção? Ou melhor: existe algum número de pessoas que valha a vida de um filho? Para a psicologia evolucionista, não. Para o Zé Mané do boteco e a dona Cleide da quitanda também não. O egoísmo dos genes aí dentro é maior do que tudo o que tem do lado de fora.

A evolução do Universo

Falando em lado de fora, e o lado de fora? A evolução seria um fenômeno circunscrito à vida na Terra ou algo universal, como as leis da física? O físico Lee Smolin, do Perimeter Institute, no Canadá, fica com a opção número 2.

Smolin mandou as regras de Darwin para o espaço. Literalmente: criou uma teo­ria que aplica a seleção natural ao Universo inteiro. E foi além. Para ele (e outros físicos), nosso Universo é só mais um entre bilhões e bilhões. Todos juntos num Cosmos imensurável que podemos chamar de Multiverso. Nesse cenário, os universos são os indivíduos, os replicadores. Cada um lutando para fazer mais e mais cópias de si mesmo.

Bom, este Universo aqui começou quando toda matéria, tempo e espaço que conhecemos estavam espremidos em algo infinitamente pequeno. Esse pontinho explodiu no “dia” do big-bang, há 13,7 bilhões de anos, e agora estamos aqui. Mas tem uma coisa: existem alguns lugares no Universo em que tudo também está espremido desse jeito agora mesmo. São os buracos negros, que sugam tudo o que está à volta deles, inclusive tempo e espaço. Por isso, Smolin imagina que dentro de cada buraco negro há um big-bang acontecendo. E os buracos seriam como “gametas” cósmicos: dariam à luz novos universos, parecidos com o “pai”. Então Smolin considera que as “espécies” mais bem-sucedidas no Multiverso são justamente as que produzem mais buracos negros – a “prole” delas vai ser seguramente maior.

Lembre-se que buracos negros são estrelas mortas. E daí? Daí que, quanto maior for o número de estrelas, maior vai ser o de “gametas”. Mais: as nuvens de matéria onde as estrelas nascem precisam ser bem frias. Bom, e sabe que tipo de coisa é o que há de melhor para esfriar essas nuvens cósmicas? Moléculas de carbono. Elas mesmas, as que deram o pontapé inicial na vida por aqui. Quanto mais delas houver por aí, mais “filhos” um Universo vai gerar. E nós, os descendentes dessas moléculas, seríamos um mero subproduto da verdadeira seleção natural, a do Cosmos. Parece desolador, mas, se for isso mesmo, podemos nos orgulhar de saber que as leis de Darwin governam tudo isso.

Ou até mais do que isso. Baruch Spinoza, um filósofo holandês do século 17, defendia que Deus e Universo são apenas dois nomes para uma coisa só; que o Criador não é exatamente um criador, mas a grande regra que move o Cosmos. Se você gosta desse ponto de vista (Albert Einstein gostava) pode dizer tranquilamente: Charles Darwin não matou Deus. Só descobriu onde ele estava.

Fatos sexuais da evolução que nunca ensinam na escola:

1. Os macacos bonobos têm testículos gigantes. É que as fêmeas deles transam com todo mundo, então a competição acontece dentro dos testículos: quem faz mais espermatozoides consegue se reproduzir.

2. Os homens de todas as culturas preferem as mulheres com “corpo de violão”, também conhecidas como gostosas. É que quadris largos, cintura fina e seios generosos são sinais de que a moça é bem fértil.3. Em algumas espécies de aves monogâmicas um terço dos filhotes nasce de casos extraconjugais – a fêmea busca os genes de machos mais fortes e faz o dedicado marido cuidar de rebentos que não são dele. Nota: isso também acontece com humanos.

Aqui começa a história da vida na Terra. No centro, está o ancestral comum de todas os seres vivos, que viveu há 3,9 bilhões de anos. Foi uma mera molécula de carbono e suas 3 filhas que deram o pontapé inicial na jornada da vida.

1. Molécula mãe

No princípio, há uns 4 bilhões de anos, eram moléculas de carbono que aprenderam a fazer cópias de si mesmas. Cerca de 100 milhões de anos depois surgiam moléculas com uma armadura de proteína. Eram as primeiras células, que dariam origem a tudo o que existe de vivo hoje.

2. Pioneiras bem-sucedidas

Há 3,9 bilhões de anos, as células não passavam de um pacote de DNA protegido por uma capa – sem “órgãos internos”, como a mitocôndria. Até hoje há muitas bactérias assim. Muitas mesmo: se juntarmos só as que vivem hoje debaixo da terra, elas cobririam o planeta todo com uma camada de 15 metros de espessura.

3. Células 2.0

Num dia qualquer, há pouco mais de 2 bilhões de anos, uma célula bacteriana entrou em outra. Foi o princípio de um casamento duradouro e feliz. A invasora foi a mitocôndria, uma bactéria que passou a funcionar como um turbo para a célula invadida, fornecendo energia em quantidades colossais. Deu tão certo que até hoje elas vivem juntas: todas as células de plantas e animais (as chamadas eucariontes) são formada por esse par.

4. Campeã de resistência

 Há cerca de 3,5 bilhões de anos, surgiu um parente das bactérias: a arquea. Ela tem características corporais que garantem o título de campeã da resistência entre as formas de vida. Chega a morar até em lugares como gêiseres, onde suporta temperaturas superiores a 100 0C.

Plantas e fungos separam-se de nós e seguem seu caminho. No reino animal, a variedade aumenta: surgem os primeiros animais com cérebro, olhos e exoesqueleto. Entre eles, nosso tataravo

1. Fábricas de oxigênio

Algumas células desenvolvem uma nova habilidade: passam a comer o carbono das moléculas de CO2. E o que sobra como “fezes” nesse processo é outro gás, o oxigênio. Era a fotossíntese das primeiras plantas da Terra, as algas, que encheria a atmosfera com o gás essencial para a vida.

Vida simples

As células eucariontes fundavam mais dois ramos: o dos fungos, que são parecidos com plantas, mas não fazem fotossíntese, e o dos protozoários, os animais unicelulares. Mas quem daria o que falar seria outro ramo, o do item 3.

Vida complexa

Depois de mais de 1 bilhão de anos com as algas produzindo oxigênio a rodo, as células, que usam o gás para produzir energia, ganham força e surgem seres complexos, multicelulares. É a explosão de vida que aconteceu entre os Períodos Vendiano e Cambriano. Surgiam ali os ancestrais diretos dos animais de hoje.

Escafederam-se

Mas a maior parte da exuberância surgida no Cambriano ficou por lá mesmo e não deu em nada. Uma grande extinção matou quase todos os bichinhos. Os poucos que sobraram deram origem a todos nós.

Primeiros olhos

Com as formas de vida ficando mais variadas, a natureza começa a fazer experiências que se consagrariam: as primeiras cabeças e olhos surgem em vermes como os platelmintos.

Seu tataravô

No meio dessa gangue de invertebrados apareceu um bichinho besta parecido com os girinos de hoje. Ele é seu ancestral direto. O rabinho atrás dele foi o que deu origem a nossa coluna vertebral.

Frio destrói o planeta. Depois o calor faz a mesma coisa. Mesmo assim, a vida segue firme, com plantas e insetos gigantes. E chega o bisavô da gente, dos dinossauros e dos sapos

Resfriamento global

Uma extinção há cerca de 450 milhões de anos varreu 85% das espécies – sorte sua que nossos ancestrais se safaram. A provável causa é irônica para nós, que tememos o efeito estufa: um resfriamento global.

Ancestral

Nosso ancestral sobrevivente é o peixe sem mandíbula, pai dos peixes comuns e dos que dariam origem a nós: os de nadadeiras grossas. Essas nadadeiras, por sinal, logo mostrariam a que tinham vido. 

Ar anabolizado

No início do Carbonífero, o clima quente e úmido oferecia condições ideais para o crescimento de árvores gigantes, com mais de 30 metros. A fotossíntese delas fez o oxigênio compor 35% da atmosfera – hoje, por exemplo, esse nível é de apenas 20%.

Fuga para a terra

O mar estava superpopulado. Fugir para a terra firme virou a alternativa para alguns invertebrados. Deles viriam os insetos modernos.

Peixe fora d’água

Peixes que viviam em pântanos transformaram aquelas nadadeiras grossas em 4 patas. E originaram os vertebrados terrestres.

Invasão dos insetos

O ar cheio de oxigênio foi um baita negócio para os bichos mais energéticos, como os insetos: alguns chegaram a medir quase 1 metro.

Efeito estufa

Há 250 milhões veio a maior extinção da história: 95% das espécies. Motivo provável: erupções vulcânicas teriam aumentado a concentração de CO2 , elevando a temperatura além da conta. As maiores perdas foram no mar.

Uma extinção abre caminho para os dinossauros dominarem a Terra. Outra os manda embora de uma vez só. Enquanto isso o mundo fica mais colorido e surge nosso avô, um “quase-ratinho”.

Rei morto, rei posto

Há 230 milhões de anos um grupo de répteis dominava a Terra. Dinossauros? Não: os terapsídios, ancestrais dos mamíferos. Mas uma extinção os varreu do planeta há 200 milhões de anos. E deixou o caminho livre para os dinos.

Era das flores

As florestas ficavam mais coloridas. As plantas com flores inventaram um novo método de reprodução: usar insetos para transportar seu gametas, em vez de atirá-los no ar. E logo elas dominariam 80% da vegetação.

Dinos aquáticos

O mar não estava só para peixe, estava também para plesiossauros e ictiossauros, os dinos aquáticos. Eles morreram milhões de anos antes dos terrestres. Suspeita-se que foi por falta de comida depois que um tipo de lula, seu prato favorito, extinguiu-se.

Come-quieto

Os primeiros mamíferos eram menores que ratos e viviam de comer insetos – embora alguns chegassem a 1 metro de comprimento. Mesmo assim, se esses pioneiros não tivessem se escondido dos dinos, você não estaria aqui.

Impacto profundo

Há 65,5 milhões de anos, um asteróide acertou a Terra. Resultado: tsunamis de 150 metros, terremotos colossais e uma onda de choque que ensurdeceu os sobreviventes. Mais de 70% dos animais pereceram. E não sobrou dino algum.

Casa nova

O meteoro que matou os dinossauros fez a alegria dos anfíbios. Ao destruir os dinos herbívoros, facilitou o crescimento de selvas, que serviram de lar para eles. Na época, as 5 espécies sobreviventes deram à luz 86% das espécies de sapos e 95% das de salamandras atuais.

Estima-se que haja 10 milhões de espécies hoje, embora só 1,4 milhão estejam catalogadas. Mesmo assim, é a ponta do iceberg: 99% das formas de vida que já passaram pela Terra não estão mais entre nós. E as extinções continuam.

Mundo mamífero

Com a Terra livre dos dinossauros, aqueles mamíferos do tamanho de ratinhos ficaram com o terreno livre para crescer e se multiplicar.

Quem dera ser um peixe

Não só os mamíferos se deram bem na época. Alguns peixes tiveram um upgrade, que lhes deu mais agilidade e força. Resultado: viraram o grupo dominante dos vertebrados, com 50% das espécies.

Nem macaco nem homem

Há 6 milhões de anos nascia o último ancestral comum de homens e chimpanzés, um ser ainda desconhecido do ramo dos primatas. Um milhão de anos depois ele evoluiria para o australopiteco. E dele para nós foi um pulo, pelo menos do ponto de vista do planeta.

E chega o homo sapiens

O australopiteco gerou o Homo erectus, que gerou o Homo heidelbergensis, que teve dois gêmeos há 200 000 anos: o Homo neanderthalensis e o Homo sapiens. Aí fizemos o que Caim fez com Abel na Bíblia: os matamos. E há 30 000 anos somos a única espécie humana na Terra.

Extinção artificial

Agora nós é que promovemos extinções em massa. Sete em cada 10 das principais espécies de peixes marinhos – que juntas somam 30% de tudo o que se pesca – já foram superexploradas. Quer dizer: se a predação humana continuar como está, elas devem se extinguir nas próximas décadas.

Nove em cada dez americanos duvidam da teoria da evolução
fevereiro de 2014






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