sexta-feira, 14 de março de 2014

Igreja evangélica regional alemã assume que apoiou o nazismo

Lutero com Hitler
Lutero e Hitler tinham em
comum o ódio aos judeus
por Andrea Galli
para Avvenire

A Igreja Evangélica da Alemanha do Norte, uma das 22 igrejas regionais (Landeskirche) que integram a Igreja Evangélica Alemã (EKD, a sigla em alemão), incumbiu o historiador Stephan Linck de pesquisar a herança que o apoio da denominação ao regime nazista deixou no pós-guerra.

Linck publicou, recentemente, "Novo início? A relação da Igreja Evangélica com o seu passado nazista e com o judaísmo. As igrejas regionais no norte do Elba, 1945-1065", o primeiro de dois volumes sobre o tema, editado pela casa publicadora da própria igreja.

Não é o primeiro mea culpa da igreja regional. Em 1998, a Igreja Evangélica da Alemanha do Norte publicou declaração por ocasião do cinquentenário da "Noite dos Cristais". Exposição sobre o assunto, realizada em vários locais entre 2001 e 2007, gerou profunda discussão, porque evidenciou a cumplicidade da Igreja Evangélica na perseguição aos judeus.

A pesquisa ora em andamento quer saber "como a Igreja Evangélica mudou depois do nazismo e como foi possível que, ao longo das décadas, o tema nunca foi abordado criticamente", disse Linck em entrevista à repórter Andrea Galli, do jornal Avvenire, dos bispos italianos.

Linck revelou que o apoio protestante a Adolf Hitler foi enorme "porque ele havia removido a República, que era vista como uma entidade a-religiosa", explicou o historiador. Os luteranos, em particular, rejeitaram a República porque ela levou à renúncia do Kaiser e rei da Prússia, que era tido como autoridade luterana.

Os nazistas, relatou Linck, propagandeavam um 'cristianismo positivo', voltado negativamente apenas contra os judeus, "e isso encontrou o favor dos luteranos". O historiador considera triste o fato de uma análise crítica dessa parte da história da igreja protestante tenha começado tão tarde.

mea culpa dos luteranos

Professor Linck, de onde nasceu essa vontade de transparência histórica?

Em 1998, quando o Sínodo da Igreja Evangélica da Alemanha do Norte publicou uma declaração-esclarecimento no 50º aniversário da Noite dos Cristais, se queria saber também quais procedimentos antijudaicos foram emitidos pelas Igrejas de Lübeck, Eutin, Schleswig-Holstein e Hamburgo. Não havia uma resposta certa, por isso foi preciso fazer uma pesquisa. Diante desse vazio de conhecimento, muitos ficaram estupefatos, e se decidiu, portanto, realizar também uma mostra que, entre 2001 e 2007, foi organizada em vários lugares e levou a uma profunda discussão, fazendo conhecer a cumplicidade da Igreja Evangélica na perseguição dos judeus. Portanto, se queria saber como a Igreja Evangélica mudou depois do nazismo e como foi possível que, ao longo das décadas, o tema nunca foi abordado criticamente. Por isso, decidiu-se iniciar um projeto de pesquisa.

Pastor Szymanowski
se tornou oficial SS
A ideologia nazista estava imbuída de neopaganismo: como foi possível manter juntos o Evangelho e a mitologia ariana?

No início do regime, o apoio protestante a Hitler era enorme, porque ele havia removido a República, que era vista como uma entidade irreligiosa. Os nazistas propagandeavam um "cristianismo positivo", voltado negativamente apenas contra os judeus, e isso encontrou o favor dos luteranos. O elemento neopagão foi rejeitado pela maioria dos fiéis.

Os escritos de Lutero contra os judeus têm um papel na "sintonia" com o antissemitismo nazista?

As profundas raízes do antissemitismo da Igreja Evangélica afundavam no nacionalismo alemão. No entanto, sim, muitos protestantes se referiam aos escritos de Lutero contra os judeus para demonstrar que eles eram os antissemitas "originais": no fundo, Lutero já havia incitado a perseguir os judeus e a incendiar as sinagogas.

Os nazistas gozaram do favor dos protestantes mais ao norte do que no resto da Alemanha?

Antes de 1933, o Partido Nacional-Socialista gozava de grande favor junto ao eleitorado protestante em geral. Ao contrário dos católicos, os protestantes, durante a República de Weimar, não tinham um partido confessional de referência. Foram os luteranos em particular que rejeitaram a República, porque isso havia levado à renúncia do Kaiser e rei da Prússia, que era visto como a autoridade luterana.

Uma curiosidade: a Lutherkircke de Lübeck foi construída de frente para o Norte. Quanto a ideologia nazista influenciou a arquitetura sacra?

A arquitetura das Igrejas foi decidida pelas comunidades individuais e não houve um projeto comum. Na Lutherkirche de Lübeck, reinavam os pertencentes à Aliança para a Igreja Alemã [Bund für deutsche Kirche, uma pequena minoria da Igreja Evangélica. Eles rejeitavam o Antigo Testamento, judeu demais, e identificavam o Deus pai da Bíblia com o nórdico "Pai de todos", "Allvater", apelativo de Odin]. Por isso, era preciso rezar para o Norte e não para o Leste, isto é, em direção a Jerusalém. Outra igreja dedicada a Lutero em Hamburgo, no distrito de Wellingsbüttel, foi construída de frente para o Norte. A Aliança para a Igreja Alemã foi fundada em 1919, mas teve grande influência somente durante a hegemonia nazista.

O expoente mais fervoroso dos chamados "cristãos alemães" no Schleswig-Holstein, Propst Ernst Szymanowski, tornou-se tão extremista a ponto de sair da Igreja e se tornar um oficial das SS. À frente de um "Einsatzkommando", ele foi responsável pela morte de milhares de russos e foi condenado no julgamento de Nüremberg.

Quais foram as omissões da Igreja Evangélica que, no seu estudo, mais chamaram a sua atenção?

Depois de 1945, a grande maioria dos luteranos não se confrontou com o seu próprio pró-nazismo. Eram criticadas, ao invés, as "forças de ocupação" e a "justiça dos vencedores". Na Alemanha destruída, à qual afluíram milhões de refugiados dos territórios perdidos ao leste, não se queria admitir que essa condição havia sido causada pelos próprios alemães, que, além disso, haviam infligido sofrimentos piores às outras populações.

Na Igreja luterana, o sentimento coletivo dos fiéis teve um maior peso com relação à necessidade de julgar o próprio passado. É triste o quão tarde começou uma análise crítica. E é amargo constatar como as pesquisas sobre a história da Igreja em âmbito universitário também se ocuparam muito pouco das responsabilidades da Igreja Evangélica durante o nazismo. Isso ficou muito claro para mim quando eu falei com protestantes de origem judaica: eles esperaram por décadas um mea culpa da Igreja. Uma dessas figuras era a filha de um pastor da Igreja de Schleswig-Holstein, o qual, em 1939, foi proibido exercer o seu ministério porque havia se recusado a se separar da esposa – uma judia que havia se batizado. O pai, em 1945, tinha pedido para ser readmitido em serviço como um pastor, mas a família esperou em vão o pedido de desculpas por parte da Igreja. Quando eu levei o caso ao conhecimento daquela que foi a sua igreja, foi colocada uma faixa. A mulher morreu três meses depois, após ter recebido o perdão da igreja esperado há tanto tempo.

Com informação do jornal Avvinire, dos bispos italianos, e tradução de Moisés Sbardelotto para IHU Online





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