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Religião, ateísmo, teoria da evolução e astronomia

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quarta-feira, 5 de março de 2014

Sam Harris diz a William Craig por que o cristianismo é nefasto

Sam Harris
Neurocientista Harris desmontou a crença cristã

por Sam Harris

O que há de errado em passar a eternidade no inferno?

Bem, me disseram, por exemplo, que é muito quente lá. Mas absolutamente não há nenhuma evidência de que o inferno existe.

Ao afirmar que o inferno existe, o dr. William Craig [apologista cristão] não oferece uma visão alternativa de moralidade.

A ideia geral do cristianismo — ou assim se imagina — é salvaguardar o bem-estar eterno da alma humana. Acho que devemos olhar para as consequências de acreditar nesse tipo de pregação teísta e as suas implicações morais.

Todos os anos, nove milhões de crianças morrem antes dos cinco anos de idade.

Imagine um tsunami asiático como houve em 2004, o qual matou 240 mil pessoas. Pois ocorre um desses a cada 10 dias matando apenas crianças nessa faixa de idade. O que dá 24 mil crianças por dia ou mil por hora ou ainda mais ou menos 17 por minuto.

Isso significa que antes que eu possa chegar ao final desta frase algumas crianças terão morrido provavelmente em terrível agonia

Pensem nos pais dessas crianças. Pensem no fato de que a maioria desses homens e mulheres acredita em Deus, e eles estão orando neste momento para que seus filhos sejam poupados. E suas orações não serão respondidas.

Mas de acordo com o dr. Craig, tudo isso é parte do plano de Deus.

Qualquer deus que permita que crianças, aos milhões, sofram e morram dessa maneira, e que seus pais fiquem de luto em circunstâncias tão trágicas, ou esse deus não pode fazer nada para ajudá-los ou não se importa com isso.

Esse deus, portanto, é impotente e malévolo. Pior: na visão do dr. Craig, a maioria dessas pessoas — a maioria delas, certamente — vai para o inferno, porque ora para o deus errado, um deus não cristão.

Essas pessoas não tiveram nenhuma culpa de terem nascidas em uma cultura “errada”, que propaga uma “teologia errada”, levando-as em consequência a não receber a “Revelação”.

Há mais de 1,2 bilhão de pessoas na Índia. A maioria delas é hindu — politeístas, portanto. No universo do dr. Craig não importa o quanto essas pessoas podem ser boas, porque, por não serem cristãs, serão condenadas.

Quem estiver orando para o deus-macaco Hanuman, do hinduísmo, será condenado ao fogo. Será torturado no inferno por toda a eternidade.

Essa condenação está em Marcos 9, Mateus 13 e em Apocalipse 14, mas não existe a menor evidência de que isso seja verdade.

Talvez alguém também se lembre de “O Senhor dos Anéis”: quando morrem, os elfos vão para Valanor, mas eles podem renascer na Terra-Média. Digo isso apenas como um ponto de comparação.

Deus criou o isolamento dos hindus, o que significa que projetou a circunstância da morte dos hindus na ignorância da “Revelação”. Ele também criou a penalidade para essa ignorância: passar a eternidade em tormento no fogo.

Na perspectiva do dr. Craig, um assassino serial, que passou a vida estuprando e torturando crianças, só precisa no corredor da morte aceitar Deus, aceitar Jesus, para passar a sua eternidade no céu, após aqui de sua última refeição de frango frito.

Uma coisa precisa ficar bem clara: essa visão de vida não tem nada a ver com a responsabilidade moral.

Percebam o duplo parâmetro que pessoas como o dr. Craig usam para livrar Deus da responsabilidade de todo esse mal.

Nos é dito que Deus é amoroso e amigável, justo e intrinsecamente bom. Mas quando alguém como eu aponta a evidência bastante óbvia e convincente de que Deus é cruel e injusto, porque causa sofrimento em pessoas inocentes, em escala e âmbito que envergonhariam o mais ambicioso psicopata, nos é falado que “Deus é misterioso”, que ninguém pode entender a vontade divina.

Entretanto, é exatamente essa compreensão meramente humana da “vontade de Deus” que os crentes usam para estabelecer a bondade divina.

Um exemplo: se algo de bom acontece a um crente, ele diz que isso é prova de que Deus é bom. Mas quando crianças, às milhares, são arrancadas dos braços de seus pais e se afogam em tsunamis, os crentes afirmam que “Deus é misterioso”.

Isso não é apenas incomodo, mas repreensível quando pessoas inteligentes usam esse tipo de argumentação.

William Craig
Craig é apologista cristão conhecido
por desafiar ateus para debate
Esse tipo de fé é a perfeição do narcisismo: “Deus me ama, sabia? Ele me curou do meu eczema. Ele me faz sentir tão bem quando canto na igreja, e quando tínhamos perdido a esperança encontramos um banqueiro disposto a reduzir a hipoteca de minha mãe”.

Deus deu “tudo de bom” ao crente desse caso, mas Ele não se importa com a miséria que neste momento está sendo imposta a muitas crianças.

Esse tipo de fé é obsceno.

Pensar dessa maneira é falhar em tentar raciocinar honestamente, é não se preocupar suficientemente com o sofrimento dos outros seres humanos.

Se Deus é bom, amoroso, justo e amável e quis nos orientar nesse sentido, por que Ele nos deus um livro, a Bíblia, que apoia a escravidão?

Por que nos deus um livro que nos incita a matar pessoas por crimes imaginários, como a bruxaria?

Existe, é claro, uma forma de não levar a sério essas questões.

De acordo com a teoria do dr. Craig de “comando divino”, Deus não está sujeito às obrigações morais. Deus não tem de ser bom, porque qualquer coisa que Ele comande é boa. Então quando Ele manda que os israelitas massacrem os amalequitas, esse comportamento se torna intrinsecamente bom, porque Ele ordenou.

Não há nenhuma razão para acreditarmos que vivemos em um universo governado por um monstro invisível, Jeová.

Trata-se de um caso de psicopatia porque representa o desprezo total para com o bem-estar dos seres humanos.

Isso racionaliza tão facilmente o massacre de crianças.

Basta pensar sobre os muçulmanos que neste momento estão explodindo a si mesmos, convencidos de que são agentes da vontade de Deus.

Não há absolutamente nada que o dr. Craig possa dizer em termos morais contra o seu comportamento, além de sua própria alegação baseada na fé de que os muçulmanos estão orando para o deus errado.

Se eles tivessem o deus certo, aquilo que estariam fazendo seria bom, sob a perspectiva da teoria do “Comando Divino”.

Agora obviamente eu não estou dizendo que o dr. Craig, ou que todas as pessoas religiosas, são psicopatas e psicóticas, mas isso para mim é o verdadeiro horror da religião.

A religião permite que pessoas perfeitamente decentes e sãs acreditem no que só lunáticos poderiam acreditar por si próprios.

Se você acordar amanhã de manhã pensando em dizer algumas palavras em latim para sua panqueca, com o propósito de transformá-la no corpo de Elvis Presley, você ficou doido. Mas se você pensa mais ou menos a mesma coisa sobre uma bolacha e o “corpo de Jesus”, você é apenas católico.

Eu não sou a primeira pessoa a perceber que o deus cristão é uma espécie muito estranha de deus amoroso, porque, para se ter a “Salvação”, é preciso acreditar nele baseado em más evidências.

Se você vivesse 2.000 anos atrás, haveria uma abundância de “evidências”, porque Deus fazia “milagres” durante o tempo todo. Mas aparentemente Ele se cansou de ser tão útil. E agora herdamos esse fardo muito pesado de implausibilidade da doutrina e o esforço para enquadrá-la com o que sabemos sobre os cosmos. Esse fardo tornar-se cada vez mais difícil de suportar.

O cristianismo, segundo o dr. Craig, é a verdadeira riqueza moral do mundo. Eu odeio ter de falar aqui, na Universidade de Notre Dame, que o cristianismo é um culto de sacrifício humano.

O cristianismo não é uma religião que repudia o sacrifício humano. É uma religião que celebra um único sacrifício humano como se isso fosse eficaz. “Deus amou o mundo de tal maneira que deus seu único filho”, João 3:16.

A ideia é que Jesus sofreu a crucificação de modo que ninguém precisasse sofrer o inferno, exceto os indianos e bilhões de pessoas ao longo da história.

Essa doutrina foi montada em uma história desprezível de ignorância científica e barbárie religiosa.

Viemos de pessoas que costumavam enterrar crianças sob os alicerces de novos edifícios como oferendas a seus deuses imaginários, para que eles ficassem impedidos de derrubar as edificações. Apenas pensem sobre isso.

Esses são os tipos de pessoas que escreveram a Bíblia.

Se houver uma diretriz moral mais nefasta do que essa que o dr. Craig propõe, eu ainda não ouvi falar.

Esse texto é transcrição de parte do debate entre Sam Harris e William Lane Craig, em 2011. Essa tradução foi feita por Alessandro Magno para legendar vídeo postado no Youtube.





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junho de 2012 

Ateísmo


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