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Religião, ateísmo, ciência e astronomia

domingo, 26 de janeiro de 2014

Com 3.500 anos, astrologia é a mais antiga pseudociência

Astrologia é um conjunto de 
convenções aleatórias e irracionais

por John Thomas
para North Texas Skeptics

A astrologia é quase certamente a mais antiga e mais disseminada de todas as pseudociências. Suas origens podem ser traçadas até a primeira metade da dinastia de Hamurábi na Babilônia cerca de 3.500 anos atrás.

Em sua forma moderna a astrologia assegura que as posições dos planetas solares na época do nascimento de um indivíduo são de alguma forma correlacionadas com sua personalidade, atividades, preferências e mesmo eventos maiores da vida (acidentes, casamentos, divórcios, etc.).

Não há concordância geral entre os astrólogos de como ou por que isto pode ocorrer. Tampouco há concordância sobre quais posições planetárias precisamente levam a quais características ou experiências específicas. É quase certo que se consultarmos dois astrólogos nenhum dos dois irá fazer o horóscopo de um indivíduo com precisamente os mesmos resultados. As previsões que resultam são freqüentemente tão vagas que de qualquer forma é impossível fazer a verificação.

A astrologia é melhor compreendida quando se estuda como ela começou. Como muitos povos urbanos e agrícolas, os babilônios tinham um panteão de muitos deuses. Eles também tinham uma ciência bem desenvolvida de astronomia observacional, que servia aos mais altos propósitos utilitários como o de proporcionar um calendário, épocas de plantio e de colheita, épocas de festivais religiosos, etc. Neste esquema observacional cada planeta era importante, e os sacerdotes cuja tarefa era fazer as observações nomeavam os planetas com o nome dos deuses de seu panteão — Marduk, Isthar, Nergal, etc. 

Por volta de 1000 a.C. havia uma extensa literatura babilônica de “presságios planetários”. Uma vez que Nergal (Marte) era o deus da guerra, um verão no qual Nergal brilhava intensamente no céu era uma época para travar uma guerra (ou uma época em que o risco de uma guerra era grande). Uma vez que Ishtar (Vênus) era a deusa do amor, uma noite de primavera na qual Ishtar brilhava alto no oeste após o pôr-do-sol era uma época boa para fazer amor.

Horóscopo é uma forma grosseira
que indica direção de planetas em
relação ao nascimento de uma pessoa
Por volta de 600 a.C. os babilônios criaram os doze signos do zodíaco: marcas no céu ao longo do caminho do sol, lua e planetas, que grosseiramente correspondiam aos meses do ano. O horóscopo mais antigo que fora descoberto data de 29 de abril de 410 a.C. Um horóscopo é simplesmente uma carta grosseira que indica as direções nas quais os vários planetas se alinham em relação ao zodíaco na época do nascimento de uma pessoa. Durante a era clássica dominada primeiro pelos gregos, e depois por Roma, os astrólogos babilônios (chamados de caldeus) se estabeleceram na maioria das grandes áreas urbanas por todo o mundo civilizado. 

Os astrônomos gregos zombavam da astrologia caldéia considerando-a um absurdo, mas o público grego adotou a astrologia da mesma maneira intensa que eles haviam adotado outros cultos bizarros ou bárbaros. Mais tarde, o estadista romano Marcus Túlio Cícero escreveu, em 44 a.C., uma crítica devastadora a estes astrólogos, que ainda vale a pena ser lida hoje em dia. Uma passagem característica: “Que loucura completa destes astrólogos em considerar os vastos e lentos movimentos e mudanças nos céus e presumir que o vento e a chuva não têm nenhum efeito no nascimento!”.

Com a advento do cristianismo, os caldeus tiveram dias difíceis, uma vez que os primeiros cristãos (como os hebreus antes deles) eram hostis aos outros deuses e religiões pagãs. É claro que não havia nenhuma maneira de disfarçar as bases essencialmente religiosas da astrologia. Durante o início da Idade Média a astrologia quase se extinguiu na Europa, mas foi mantida viva em outros lugares por estudiosos islâmicos.

As Cruzadas trouxeram a astrologia de volta para a Europa onde ela co-existiu inconfortavelmente com o cristianismo até o surgimento da idade da ciência. O crescimento explosivo da astronomia científica a partir de 1600 A.D. fez paralelo com um declínio explosivo do sucesso da astrologia. Por volta de 1900 uma enciclopédia francesa descreveu a astrologia de maneira correta como um culto desaparecido sem adeptos jovens.

A astrologia realizou o retorno mais estrondoso de toda a sua história após a Primeira Guerra Mundial, quando o astrólogo britânico R. H. Naylor inventou a coluna de astrologia diária em jornal.

O resultado paradoxal é que o auge da astrologia não foi durante a época das trevas da Idade Média, quando o cidadão médio estava atolado profundamente na ignorância e superstição, mas ao invés disso no século XX, quando a maioria dos cidadãos presumivelmente conhecem os fatos básicos da astronomia e estão a par que os planetas são mundos similares à Terra ao invés de deuses-incandescentes no céu.

Desse modo, pelo menos 90% de todos os americanos abaixo dos 30 anos conhecem seu signo solar. Existem mais de 10.000 astrólogos praticantes nos EUA, e os americanos gastam mais de 200 milhões de dólares anualmente consultando astrólogos. (Nos EUA há somente cerca de 3.000 astrônomos profissionais, e apenas cerca de 100 milhões de dólares são gastos com pesquisa básica em astronomia — exceto as experiências espaciais).

Os cientistas estão bastante desconcertados pelo crescimento da popularidade da astrologia, e uma série deles tem dedicado um tempo para conduzir estudos cuidadosos para ver se há alguma correlação real entre as posições planetárias ao nascimento e algum atributo do indivíduo na vida futura. Nenhum estudo válido estatisticamente jamais demonstrou qualquer conexão que pudesse dar alguma validade para qualquer conceito astrológico — não importa quão vago o conceito tenha sido pronunciado! Não há nenhuma dúvida quanto ao simples fato de que a astrologia não funciona.

Para previsões mais específicas, o
astrólogo consultar uma tabela. Mas de
onde vem essa tabela? Quem a inventou?
Tampouco há qualquer razão pela qual deveria funcionar. A fim de ir do horóscopo de um indivíduo para uma previsão específica do que está porvir para aquele indivíduo, o astrólogo deve consultar uma tabela. Esta tabela correlaciona características do horóscopo (posições dos planetas) com atributos individuais (inteligência, afeição, força física, boa saúde, etc.) De onde vem esta tabela? [Note que é tal tabela e não o horóscopo em si que é o "âmago" da astrologia.]

Esta tabela simplesmente é feita por quem quer que seja que escreveu o manual de astrologia em particular que está sendo usado. Por isso dois astrólogos podem chegar a previsões diferentes (até mesmo contraditórias) a partir de um simples horóscopo. Há numerosos “sistemas astrológicos” bastante diferentes; todos diferentes, todos arbitrários, e todos completamente desconectados da realidade.

Esta arbitrariedade é uma característica de todas as pseudociências, e ocorrem porque as origens das pseudociências não recaem na observação da natureza, mas em convenções históricas acidentais da cultura humana. Por exemplo, os antigos costumavam chamar o segundo planeta a partir do Sol de Vênus e o quinto planeta a partir do Sol de Júpiter. Se eles tivessem feito de outra maneira, não teria feito a menor diferença para astronomia. Vênus seria então o maior planeta com cinturões coloridos e uma mancha vermelha, enquanto Júpiter seria um planeta incrivelmente quente com aproximadamente o tamanho da Terra. Mas para a astrologia seria então totalmente diferente, porque a astrologia depende inteiramente das características associadas com o nome, não com o planeta real! Júpiter, chefe dos deuses,
é um líder dos homens. Vênus, deusa da amor, governa as emoções. Mudar os nomes arbitrários deixaria a realidade inalterada mas a astrologia, os horóscopos, etc, tornariam-se totalmente diferentes. É interessante notar que os Maias consideravam Vênus o senhor da morte.

Outra maneira de ver isto é considerar o zodíaco. Os babilônios, com seu interesse no calendário, naturalmente tinham 12 signos zodiacais. Porém mais uma vez isto é arbitrário. Outras culturas usavam 28, por exemplo os chineses e hindus. As culturas toltecas da América Central usavam 20. Os próprios babilônios usaram de 6 a 18 antes de configurarem os “tradicionais” 12. Novamente a escolha arbitrária do número dos signos (sem mencionar os nomes dos signos) é óbvia. Como para os nomes, se um dado grupo de estrelas eram chamadas de “Áries, o Carneiro”, este nome escolhido arbitrariamente então predeterminou a “interpretação” nas tabelas … uma vez que os carneiros são agressivos e assertivos, assim serão as pessoas nascidas com o sol (ou algo assim) em Áries. Como alguém distingue a agressividade do carneiro daquela do bode Capricórnio ou o do Escorpião é outro problema! Se estes grupos de estrelas tivessem sido denominadas de “A Cadeira”, “A Escrivaninha” e “O Castelo”, as interpretações novamente seriam irreconhecivelmente diferentes.

Como outro exemplo, considere o suposto “sistema de casa” da astrologia. Afim de proporcionar mais tabelas com mais características para consultar, a doutrina astrológica tinha proposto muitos sistemas de casas diferentes (talvez até uns 50). Estas são divisões arbitrárias do céu em setores, vagamente como pedaços de laranja. Os vários sistemas diferem na extensão, no número e de como estes setores estão orientados no céu em relação à eclíptica, ao horizonte e ao equador. Há dois sistemas principais de divisão de casas em uso pelos modernos astrólogos, o Koch e o Placidiano. É hilário que em nenhum destes dois sistemas alguém que tenha nascido acima dos 66,5 graus de latitude norte sequer tem um horóscopo! As estrelas não têm nada a dizer sobre 12 milhões de pessoas!

A precessão dos equinócios, que gira
em um grande círculo, mostra que a
fundamentação do horóscopo é hilária
Outro aspecto hilário da astrologia é devido ao fenômeno astronômico conhecido como a precessão dos equinócios. Isto era conhecido pelos astrônomos gregos por volta de 150 a.C. e pode ser que já fosse conhecido há muito mais tempo. Ela destrói completamente a base da astrologia. O problema é que os primeiros astrólogos, para quem o sol nascia em Áries no equinócio da primavera, definiam o signo de Áries como sendo centrado no ponto do equinócio da primavera. Mas como os antigos gregos sabiam, o equinócio gira em um grande círculo, levando cerca de 26.000 anos para completar seu ciclo. Desse modo, hoje, o signo de Áries está em algum lugar próximo da constelação de Áries! Essa separação do significado do símbolo a partir da dispersão aleatória de estrelas cujo nome arbitrário originalmente deu ao símbolo seu nome e significado é absurda mesmo para muitos astrólogos, que desse modo discordam com todos os outros astrólogos por manterem o signo fixado à constelação ao invés de deixá-lo mover-se com os equinócios!

A moral é que quando alguém tem um sistema baseado em aleatoriedade e convenção arbitrária, um embaralhamento ou uma mistura do sistema é indetectável. A astrologia é apenas uma geração aleatória de palavras, e misturar o procedimento pelo qual a palavra aleatória é gerada é indetectável, uma vez que a entrada de palavras permanece ao acaso com qualquer mistura genuína posterior. O problema é como ninguém podia estar a par desta aleatoriedade, das convenções irracionais que crucialmente determinam a natureza das “previsões” da astrologia.

A questão do porquê as pessoas acreditam em astrologia é mais interessante do que os detalhes do horóscopo. Os psicólogos têm mostrado que os consumidores ficam satisfeitos com as previsões astrológicas desde que os procedimentos sejam individualizados de alguma maneira um tanto vaga. Por exemplo, se o astrólogo pedir uma grande quantidade de informação pessoal antes de fazer a previsão, o indivíduo fica muito mais satisfeito com ela do que se o astrólogo fizer poucas perguntas (e fizer a mesma previsão). As próprias previsões são quase sempre muito vagas e universais em aplicabilidade; elas podem descrever quase todo mundo.

A astrologia recai em uma ilusão de pensamento chamada validação pessoal. Isto depende da natureza seletiva da memória. Se acreditamos que algo é de certo modo, tendemos a lembrar os eventos que o apoiam, e esquecer daqueles que não. O resultado é uma sensação crescente de convicção. Lembramos da parte da narrativa em que nos encaixamos e esquecemos da parte que não. Influenciar as pessoas dessa maneira é chamado de leitura fria, e há uma literatura psicológica considerável sobre o assunto.

A ciência moderna tem podado a base da astrologia em todas as vezes. O indivíduo é formado na concepção; não no nascimento. A força gravitacional exercida sobre um recém-nascido pela Terra é mais de um milhão de vezes maior que a de qualquer corpo celeste. A força de maré exercida pela mãe e pelo prédio do hospital é, da mesma maneira, um milhão de vezes maior que a de qualquer corpo celeste. A radiação eletromagnética que incide sobre o bebê provinda do sol ou das luzes do quarto é um milhão de vezes mais intensa que a de qualquer outro objeto celeste. Mudanças no ambiente durante o desenvolvimento inicial têm muito mais efeitos sobre o desenvolvimento de uma pessoa do que os eventos na época do nascimento. Também, a época do nascimento pode ser alterada, até um certo limite, pelas ações de um médico. Quais são as implicações astrológicas de uma cesariana ou um parto forçado? 

Outro ponto importante a considerar é o papel estabelecido dos genes na natureza de uma pessoa. Suponha duas pessoas não aparentadas que nasceram na mesma época no mesmo hospital. As “forças astrológicas” irão levar em conta as forças genéticas? A ciência da genética tem demonstrado que a resposta para essa pergunta é “não”. Não há nada o que quer que seja em toda a natureza que tenhamos explorado até agora ou em qualquer de nossas outras experiências que dê qualquer credibilidade para qualquer ideia astrológica.

Mesmo assim, milhões de americanos continuam a regular seus compromissos diários (até um certo limite) de acordo com os conselhos arbitrários e potencialmente prejudiciais. Por quê? É essencial lembrar que uma crença não precisa ser verdadeira para ser útil. A astrologia tem florescido porque é uma estrutura dentro da qual as pessoas podem discutir e procurar por um significado em suas vidas. Vista como um sistema de suporte social, a astrologia está em algum lugar entre a religião e a psicoterapia.





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janeiro de 2012

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