por
Sanjuana Martínez, do
Religión Digital

Marcial Maciel não tinha apenas o controle da poderosa ordem católica dos Legionários de Cristo. Agora, sabe-se que, durante 60 anos, ele acumulou uma riqueza inusual para um sacerdote. E que grande parte dessa fortuna se encontra depositada em bancos e paraísos fiscais como o das Ilhas Bahamas. Sabe-se que essa abundante riqueza deu início a uma guerra entre os herdeiros, os filhos de Maciel.
Alejandro Espinosa, sobrinho de Maciel, conta como e quanto dinheiro ele movimentava, de onde o obtinha e outras histórias até agora desconhecidas de quem acabou sendo a imagem mais grotesca da pederastia com o consentimento de papas e do Vaticano.
Marcial Maciel foi aparentemente um bom pai, mesmo que não precisamente da Igreja católica, mas sim de família. Sua preocupação com o destino de seus filhos fez com que ele lhes deixasse de herança uma espécie de fideicomisso no paraíso fiscal das Bahamas, concretamente na subsidiário do Citibank, Cititrust Limited.
A fortuna acumulada durante 60 anos pelo fundador dos Legionários de Cristo, Marcial Maciel, é incalculável, e seus supostos filhos já lutam para levar uma parte da herança acumulada por meio dos generosos donativos de seus fiéis devotos.
O futuro dos três filhos mexicanos de Marcial Maciel até agora identificados – Norma Hilda que vive em Madri, na Espanha, e os irmãos Raúl e Christian, que vivem em Cuernavaca, Morelos, no México – está supostamente assegurado. Mesmo que ainda não esteja determinado entre quantos eles terão que dividir esse dinheiro, já que a Legião reconhece a existência de "vários" outros filhos.
Alejandro Espinosa, sobrinho de Marcial Maciel e autor do livro
"El Legionario", no qual narra os abusos sexuais aos quais foi submetido pelo fundador dos Legionários, assegura que seu tio sempre lidou de maneira discreta com o dinheiro dos Legionários e que, mais do que um fideicomisso nas Bahamas, ele abriu contas bancárias em nome de substitutos para usar esse dinheiro como quisesse.
Por exemplo, ele oferece sua experiência própria e conta como, em dezembro de 1950, o acompanhou de Madri a Nova Iorque para fazer uma financeira no First National City Bank:

"Lembro que nos hospedamos três dias, porque meu tio ia atender seus assuntos de narcotráfico e lavagem de dinheiro, para ser claro. Ali, ele depositou pouco mais de 400 mil dólares em duas contas em meu favor. Naquele tempo, era muito dinheiro. Pôs o dinheiro em meu nome, e eu assinei".
Espinosa assegura que, além dos generosos donativos, Maciel foi criando uma fortuna com negócios ilícitos como a lavagem de capitais, produto do tráfico de drogas das quais era dependente. "Tendo tanto dinheiro envolvido, qualquer um se torna filha de Maciel".
Ele afirma que o fundador dos Legionários enriqueceu sua família, concretamente seus oito irmãos: Olivia, Teresa, Blanca, Maura, Francisco, Alfonso, José e Javier: "Enriqueceu-os. Só deixou Francisco de lado, por causa de suas tendências homossexuais, segundo o próprio Maciel. Por isso, lhe dava surras quando o surpreendia fazendo papel de menina quando brincava com outros meninos".
Sobre a versão de que Maciel abusou sexualmente de seus próprios filhos, Espinosa duvida: "Não acredito. Me parece contrário à psicologia que eu conheci em Maciel. Por que nunca violentou suas irmãs ou irmãos?".
Alejandro ingressou na Legião aos 12 anos e permaneceu 13 anos ao lado de seu tio. Portanto, mostra-se cético com relação à veracidade da história sobre os vários dos filhos do líder dos Legionários. "Ele me disse que havia dezenas de mulheres que lhe imploravam por um filho da carne e que lhe pagavam para lhe deixar descendência. E ele me disse: 'Eu me cuido muito. Imagine o que teria acontecido se Jesus Cristo tivesse tido filhos!'".
Em fevereiro passado, a Legião de Cristo revelou à luz pública a existência de uma filha de Marcial Maciel. Trata-se da mexicana Norma Hilda, que vive em um luxuoso apartamento na rua Los Madroños, em Madri, que pactuou seu silêncio com os atuais dirigentes legionários em troca de uma pensão vitalícia e propriedades: "É uma maneira de lavar a cara de Maciel, fazendo com que fosse visto mais humano. O Papa Bento 16 obrigou-lhes a anunciar o fato da filha. Ratzinger foi seu principal encobridor junto com Wojtyla".
E acrescenta: "Por causa da grande quantidade de dinheiro que os legionários manejam e depois que eles mesmos reconheceram a existência de Norma Hilda, eu não duvidaria que surgissem filhos de meu tio às dezenas, até Lucrecia Rego [diretora do site Catholic.net] diz que é filha".
Sobre a existência de outros descendentes representados por um advogado mexicano, Espinosa diz que carece de credibilidade sem provas: "Há muito interesse econômico por parte do advogado que diz representar os supostos filhos de Maciel para que se pense que seu objetivo esteja livre de interesses espúrios. Ele disse ter provas, mas não apresenta nenhuma, algo que não comprometa, mas que dê fé. Onde estão as fotos, as cartas de seu punho e letra, os e-mails, as gravações? Não há nada. Isso me deixa muitas dúvidas".
Só se consegue a credibilidade, diz, oferecendo provas, e uma carta escrita à máquina e assinada por uma das supostas falsas identidades que Maciel usava não é suficiente. "Tudo me parece muito artificial, principalmente porque esses supostos filhos surgem agora que ele morreu. Por que não apareceram em 1997, quando denunciamos Maciel? Por que eles aparecem agora que já é tão fácil?".
O mais grave, assinala, é que, depois da batalha empreendida pelas vítimas de Marcial Maciel e que, no final, ganharam credibilidade, algo que lhes custou muito, tudo isso pode vir abaixo por causa das mentiras de uns quantos que buscam se legitimar.
"Custou-nos muito trabalho abrir essa parte da sociedade e ganhar a credibilidade sobre as acusações contra Maciel. Nós nunca buscamos uma retribuição econômica, por isso tenho minhas dúvidas. Não nego os níveis de perversão que Marcial Maciel atingiu, mas sim pelo fator econômico que está por trás".
Os testes de DNA são determinantes, mas Espinosa duvida que esses jovens os tenham. "Nesse caso, eu também digo que estou disposto a fazer um teste de DNA para provar que sou parente, para ver se consigo herança e com a segurança de que, no meu caso, sim, é o mesmo sangue. Maciel era primo-irmão de meu pai".
Espinosa assegura que poderia aceitar que Maciel tenha filhos, desde que se ofereçam provas. "Se chegarem a mostrar um documento fidedigno, eu acredito, mas não com palavras. Se chegar a se comprovar essa paternidade, ele continua sendo o mesmo monstro. Diferentemente de Jesus Cristo, ele sim tentou fundar seu reino na terra, porque não acreditava no do céu".
O capítulo das mulheres de Marcial Maciel tem como objetivo humanizá-lo, segundo Alejandro Espinosa, mas adverte: "Maciel, antes de tudo, era um homossexual e um pederasta. O fato das mulheres era um sacrifício que ele assumia para depená-las. Isso é o que eu vi durante muitos anos. Não serve de nada torná-lo muito homem à força, falando de suas mulheres. Ele estava disposto a fornicar com todas das quais podia tirar uso e benefício".
De acordo com sua experiência, a procedência dos supostos filhos de Maciel causa ceticismo em Espinosa, principalmente porque a mãe de Norma Hilda é uma mulher morena com traços indígenas, e a de Raúl e Cristian é alguém de classe média ou baixa. "É muito estranho, porque Maciel era extremamente racista. Não há uma relação coerente. Ele também não se metia com os empregados. Ele, talvez, tinha relações sexuais com as donas de casa, com a de Lola Barrosa, onde ia descansar em Cuernavaca. Para ele, os empregados eram pessoas de segunda classe".
"Maciel buscava mulheres da alta sociedade, inclusive uma menina de 15 anos, de sobrenome Zapata, cujo pai era dono da fábrica Tapón Corona, que disse a Maciel: 'Deixe o sacerdócio e case-se com minha filha'. Ele não aceitou por 'pura virtude', mas a menina pedia para que ele procriasse um filho com ela".
Outra chorava e lhe rogava que fossem viver na Suíça, e havia uma atriz italiana que tinha um filho mais bonito que o menino Jesus, e Maciel levava rosas e chocolates para ela. "Eles se hospedavam no hotel Excélsior de Madri e tinham camas juntas. Viveu com ela durante meses. Se ele queria filhos, por que então não teve filhos com suas amantes ricas?".
Segundo Espinosa, Maciel teve todas as amantes que quis, desde esposas de homens da alta sociedade, até viúvas. "O sexo era a paixão que o dominava. Fez do sexo o instrumento que o levou ao sucesso em todos os campos de sua vida. Entre os anos 50 e 60, teve 12 mulheres. Ele nomeava todas elas, e eu as fui conhecendo. A única que eu nunca vi foi uma tal de Josefita Pérez de Delfino, que era filha do ditador Pérez, da Venezuela, e outra senhorita de sobrenome italiano.
Maciel gostava das bonitas, mesmo que Talita Retes não era a melhor. "No entanto, ele a teve como amante, sim. Talita Retes foi a primeira amante. Ela lhe exigia o casamento, e Maciel a mandou para longe, claro, depois de lhe tirar o dinheiro. Ela lhe deu mais de seis mil pesos em ouro. Com isso, ele viveu e comprou a casa de Madero 12".
Maciel, indica Espinosa, dizia as mesmas mentiras a todas, "da mesma forma que dizia a nós quando crianças, para submetê-las sexualmente: a permissão papal, suas doenças da próstata, a retenção de sêmen... todas essas estupidezes que, quando crianças, acreditávamos. O raro é que elas caíram nisso também".
As testemunhas sempre falaram da capacidade de sedução de Maciel. "Elas se deixaram seduzir. Ele era galanteador, e depois elas o colocavam adornado com essa aura de predestinação celestial, as bênçãos do céu e tudo o mais, pois as mulheres ficavam alienadas com ele. E Maciel adorava isso e dizia que elas o confundiam com o Duque de Windsor. A religião para ele foi seu passaporte para a boa vida, para o dinheiro, para o poder, para a supremacia social. Maciel não acreditava em nada.
A quanto chega a fortuna acumulada por Maciel? Ninguém oferece uma quantidade exata. A Legião de Cristo é uma multinacional que tem mais de 850 sacerdotes, três mil seminaristas e 70 mil leigos, agrupados em sua associação Regnum Christi, em mais de 40 países.
O complexo educativo é composto por mais de 145 colégios, nove universidades e 21 institutos superiores. "A fortuna é muito maior do que 20 bilhões de euros. É preciso calcular todas as suas propriedades, as universidades, os colégios ou instituições de ensino, os mais caros e os mais ineficientes".
A combinação de sexo e dinheiro por parte de Marcial Maciel foi uma realidade durante toda a sua vida, comenta Espinosa, que assegura que Maciel ofereceu a ele mesmo ser sua mão direita, contanto que se submetesse a seus desvios:
"Eu fui submetido a vários de seus abusos, mas nunca me deixei violentar. Vi as orgias nas quais ele participava e como ele abusou de outros companheiros. Eu pensava que ele era uma máquina sexual, mas não, o doutor Ernesto Lammoglia me corrigiu e o definiu como um monstro do dinheiro. E é verdade. Ele se importava com o dinheiro sobre todas as coisas, e o sexo era um instrumento multifuncional". (Tradução de
Moisés Sbardelotto, para o IHU
On-line)
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| Maciel foi citado por João Paulo 2 como exemplo a ser seguido |
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Caso do padre Marcial Maciel, o devasso.