sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Por que pacientes do Roger demoraram para acusá-lo de abuso?

Abdelmassih
 Nesta semana, a juíza Kenarik Boujikian Felippe, da 16ª Vara Criminal de São Paulo, começou a colher o depoimento das mulheres que acusam Roger Abdelmassih (foto) de abuso sexual.
Algumas delas têm relatado o que por anos não disseram sequer ao marido. 
Por que algo tão grave foi mantido em segredo por tanto tempo? E por que só agora essas mulheres resolveram denunciar o especialista em reprodução humana assistida?

Muitas pessoas que acompanham o caso fazem essas perguntas.
Abaixo, segue a explicação de uma das ex-pacientes do médico.


Por que não contei nada na hora?

O meu marido não era totalmente favorável ao tratamento. Após eu insistir, resolvemos pagar cerca de 30 mil para realizar um sonho, no "melhor do Brasil" (o médico assim se denominava).

Após gastar mais de R$ 11 mil de remédios, no dia da aspiração, em uma sala de repouso, onde eu estava sozinha, ele [o médico] me agarrou, me beijou, me acariciou nos órgãos genitais, etc.... Mesmo implorando para que ele parasse, ele continuou.

No momento em que consegui fugir só tinha duas possibilidades:

1ª) Fazer um escândalo na clínica e contar tudo ou

2ª) Ficar calada para sempre.

Ponderei rapidamente com muita dor e sofrimento a primeira hipótese e senti que a consequência poderia ser muito pesada, pois meu marido ficaria nervoso e quebraria tudo, inclusive ele [o médico].

Neste caso, o meu marido seria preso e eu não teria nenhuma prova do fato. Estávamos nós dois na sala e não houve penetração. E quem acreditaria numa "Joana Ninguém" se comparada a um médico com projeção nacional e internacional e com amigos poderosos?

Além disso, possivelmente meu marido nunca mais toparia fazer um tratamento para ter um filho, somando-se a isso o fato de os nossos embriões já estarem dentro da clínica, era só implantar. Para somar, eu já havia pagado tudo (R$ 37 mil) e era a minha quase única chance de ter um filho.

Ainda com sofrimento, ponderei as consequências da hipótese de ficar calada. Neste caso, também sofreria para o resto da vida, mas ao menos não faria o meu marido e a minha família sofrerem.

Além disso eu poderia engravidar e torcer para que um dia eu ou outra pessoa conseguisse alguma prova para incriminá-lo, porque certamente Deus trataria do assunto com a verdadeira justiça. Diante das consequências menos arriscadas para minha família, optei por ficar calada.

No entanto, precisei voltar [à clínica] para implantar os embriões e me certifiquei de que não seria com ele [o dr. Abdelmassih]. Além disso, tomei o cuidado de não ficar sozinha em NENHUM momento dentro daquele local.

Infelizmente, fui vítima de uma dor emocional muito forte combinada com uma infecção e aí perdi o meu bebê. Mas mesmo tendo pago um pacote de três tentativas [de fertilização] NUNCA MAIS VOLTEI NAQUELE HORROR...

Esse depoimento é apenas para esclarecer por que não contei tudo na hora.

Hoje é tudo mais fácil, inclusive julgar quem não contou na hora. Agora tenho certeza de que o médico fazia [abusava] de várias [mulheres] e armava tudo para que não houvesse provas. Afinal, o crime de abuso sexual é realmente um crime silencioso.

Graças a Deus alguém muito mais forte e corajosa do que eu contou a verdade. Então a verdade das demais ganhou a força para buscar a justiça dos homens.

Às mulheres que se trataram na clínica e não passaram por isso, eu digo: agradeçam a Deus todas as noites por terem sido poupadas.


> Onde estão os artistas que chamavam Roger de Dr. Vida?’
janeiro de 2010

> Caso Roger Abdelmassih.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...