domingo, 19 de abril de 2009

Nove relatos de mulheres sobre o estupro que sofreram

Os relatos que se seguem são de mulheres vítimas de estupro. Eles foram colhidos pelo Rhamas (Redes Humanizadas de Atendimento às Mulheres Agredidas Sexualmente), um projeto da médica sanitarista Elcylene Leocádio com o apoio da Fundação Ford.

O projeto começou em 1999 e foi até 2001. No site do Ipas, uma ong de proteção à saúde de mulheres, há um apanhado do resultado do projeto, incluindo os dramáticos casos das vítimas, que, muitas vezes, são atingidas também pela incompreensão da família e pelo descaso dos serviços públicos de saúde.

1- Gabriela: "Ele não era um estranho, era o meu pai"

"Eu acho que violência contra a mulher é o que aconteceu comigo [em 2000] e que acontece com outras mulheres. Se ele fosse um estranho, eu até que não estava tão revoltada, mas foi meu pai, ele não me respeitou em momento algum. Ele não me considerou como filha. Outro caso de violência é o espancamento. Além disso, eu acho que tem muito homem que tira a privacidade da mulher e pra mim isso já é uma violência. Eles fazem isso com as mulheres porque eles acham que são homens e podem tudo. Eles não vêem que se não fosse a mulher eles não estariam no mundo. Eles não olham essa parte não. Eles não, a maioria". (Gabriela sofreu abuso sexual, físico e psicológico por parte do pai, dos sete aos 13 anos de idade. Conseguiu sair de casa aos 14 com apoio de um serviço de saúde.

2 - Sônia: "Estou grávida, mas, se eu falar que foi estupro, ninguém acredita" 

Final do ano. Sônia, 16 anos, voltava do colégio onde fez a matrícula para ingressar no segundo grau. Esperava para atravessar a rua. Um carro parou subitamente. O motorista abriu a porta e a puxou para dentro. Ameaçando-a com uma arma e dirigindo em alta velocidade, ele seguiu para uma mata afastada da cidade. Sexo oral, vaginal, uma, duas vezes. Calada, ela pensava em sua mãe e chorava. "Se você contar a alguém o que se passou, você e sua família morrem." Sônia foi para casa. Lavou-se à exaustão. Sentia-se suja. Tinha nojo de sí . Vomitou muito. Chorou em silêncio e ficou em casa vários dias. Conversou com uma amiga. Não queria incomodar sua mãe, recém-separada do marido, alcoolista, que lhe batia. A filha não queria lhe dar mais uma tristeza. Duas semanas após ela teve um pequeno sangramento e achou que era a menstruação. Quis esquecer tudo. Três meses depois, uma vizinha disse para sua mãe: "Tu não estás vendo que tua filha está grávida?" A mãe foi procurá-la e perguntou: "Quem foi? Por que você me enganou? Por que você não me disse nada?" Foi difícil convencer a mãe do que acontecera. Em companhia de uma prima, Sônia procurou um grupo de mulheres de sua comunidade e pediu orientação. Pouco se podia fazer, não havia serviços de atenção a vítimas de violência naquela cidade. "Se eu tenho esse filho, lá no bairro vão dizer que eu sou uma prostituta. Se eu digo que foi estupro ninguém acredita. Nem minha mãe acreditou em mim!" Sem acesso a um serviço de saúde que a atendesse dignamente, ela procurou o aborto clandestino e foi atendida num consultório sem as mínimas condições de segurança, expondo-se aos riscos da mortalidade materna porque a rede pública de saúde ainda não oferecia os serviços que poderiam garantir a Sônia o exercício de seus direitos.

3 - Josefa evitou que a filha fosse violentada, mas ela não conseguiu escapar 

Josefa voltava para casa com a filha adolescente, quando foi atacada por três homens. Reagiu, lutou contra e gritou: "Corra minha filha!" A menina conseguiu fugir. Josefa foi estuprada. Engravidou. Ao descobrir a gestação, ela conversou com o marido. Sentia muita tristeza. Raiva daqueles homens. Culpa de não ter conseguido se defender direito, de ter passado naquele lugar. Lembrava da filha e agradecia a Deus por não ter acontecido coisa pior. Ela não queria esse filho, mas não tinha coragem de abortar. Sua religião condenava o aborto. O marido lhe disse que aceitaria o filho como seu. Josefa sentiu-se apoiada, mas queria ser atendida num serviço de saúde. Mesmo com apoio do marido e tendo decidido ter o filho, a rejeição pela gravidez continuava. Ela procurava uma psicóloga que lhe ajudasse a enfrentar aquela situação. Josefa encontrou quem lhe atendesse? Não se tem a resposta.

4 - Mãe de Rosali exige: "Esta menina não pode continuar grávida"

Rosali tinha 17 anos. Assistia televisão em casa, num bairro da periferia de uma grande cidade, quando decidiu sair para comprar um sanduiche. No caminho, foi interceptada por dois homens e estuprada sob ameaça de uma arma. Assustada, voltou para casa e, em companhia da mãe, foi à delegacia. Dalí, as duas seguiram ao hospital. Na emergência, recebeu cuidados ginecológicos inadequados para uma situação de violência sexual (ducha vaginal). Dois meses depois ela descobre a gravidez e recorre ao serviço que lhe atendeu na ocasião do estupro. Ninguém sabia o que fazer. A mãe, segura de seus direitos procurou as autoridades. Ela dizia: "Alguém precisa fazer alguma coisa, essa menina não pode continuar grávida. Ela não procurou isso". Rosali cabisbaixa, apenas chorava. Três meses após a interrupção de gravidez, realizada numa maternidade pública de referência para vítimas de violência sexual, a adolescente deu notícias para quem lhe atendeu: "Oi, doutora, aqui é Rosali, a menina do estupro. Liguei para dizer que estou bem. Arranjei um emprego e voltei a estudar." A vida de Rosali retomava seu curso.

5 - Adélia: grávida de estupro, teve de ouvir pregação religiosa de enfermeira

Adélia está só em casa. Chega um rapaz à sua residência, pergunta por seus familiares e pede um copo d'água. Adélia dirige-se à cozinha e é seguida. Com uma faca no pescoço ela é estuprada e ameaçada de morte caso revele a violência a alguém. Ela permanece em silêncio até descobrir que está grávida. Sente medo e vergonha. Conta tudo à sua mãe e não recebe a acolhida esperada. Ela não lhe dá crédito e tampouco a aconselha a prestar queixa ou tomar qualquer outra atitude. Ela acredita que a falta de informação leva sua mãe a agir dessa maneira. Ela procura a Delegacia da Mulher também esperando um atendimento especial, mas o serviço está em greve. A delegada ausente. Dias depois consegue ser atendida e diz à delegada que quer se submeter a um aborto. Sem nenhum tipo de orientação, é encaminhada ao IML. É mal recebida pela recepcionista e questionada sobre a demora em prestar queixa. Faz o exame de corpo de delito com uma médica que lhe trata de "forma mecânica". Com o laudo, Adélia volta a falar com a delegada. Ao ser inquirida por Adélia sobre em que maternidade poderia interromper a gravidez, "agressivamente" a delegada responde: "Não posso dizer isso não, você se vire". Adélia procura médicos de sua relação pessoal, os quais indicam um serviço de referência, onde é atendida por um médico e uma enfermeira - cordiais e gentis, pois, segundo percebe, eles estão acostumados a realizar este tipo de procedimento. Adélia é acompanhada pelo serviço social e orientada sobre o direito de realizar o aborto de forma segura. Durante o aborto, Adélia fica só. É quando sente a indiferença de alguns profissionais que não fazem parte da equipe treinada para atender vítimas de violência sexual. Uma auxiliar de enfermagem tenta convencê-la a não fazer o aborto dizendo que isso é contra a lei de Deus. Adélia diz: "Vocês deviam ser pessoas neutras, porque este não é um problema de vocês, isso é um problema meu, que eu estou tentando resolver..." O aborto ocorre durante a noite. Ao término do tratamento, ela se sente aliviada.

6 - Suelene: fez aborto porque não suportou a ideia de ter um filho de seu pai

Suelene foi abusada sexualmente pelo pai durante um ano. Ameaçada com uma faca, Suelene foi obrigada a manter relações sexuais com o seu pai por um ano. Sentia-se muito mal, mas com medo ela nada contava para sua mãe. Mas teve de contar para a mãe quando ficou grávida. Juntas vão ao Conselho de Proteção aos Direitos da Criança e Adolescente, à delegacia de polícia e ao Instituto Médico Legal, onde foi feito o exame de corpo de delito. O agressor foi preso. Suelene foi encaminhada para tratamento no hospital de referência. A mãe e uma tia lhe dão apoio durante a denúncia criminal. Ela decide abortar, mesmo considerando o aborto ser agressão, mas não suporta a idéia de ter um filho do próprio pai. Ela conhecia a lei que permite a interrupção da gravidez por estupro porque assistiu uma entrevista na televisão. Mesmo assim foi uma decisão difícil. "Se a gravidez fosse de um namorado eu enfrentaria com unhas e dentes, mesmo sem ajuda do pai eu não abortaria". Para ela, foi importante ter feito tudo dentro da legalidade, "tudo na justiça". Ao sair do hospital Suelene tem medo das críticas, mas acredita que o mais importante é o que ela pensa e não a opinião dos outros. Durante o depoimento ela afirma sentir muito ódio pelo pai. Mas o apoio familiar e das instituições públicas parece ter sido - ou estar sendo - fundamental para a superar os problemas associados ao abuso sexual.

7 - Estuprador disse para Ana Lúcia: "Pare com esse chororô"

Ana Lúcia foi abordada por um rapaz em um ponto de ônibus. Ele se aproximou perguntando se ela queria trabalhar como recepcionista para receber dois salários mínimos. Ana recusou a oferta e disse estar apressada. Então o rapaz disse que ia matá-la, caso gritasse. Disse estar com um revólver cheio de bala que poderia ser descarregado nela. Poderia até obrigá-la a fazer sexo oral, anal e vaginal na frente de todos, pois não tinha nada a perder e até matá-la ali mesmo. "Eu não tive outra opção", diz Ana Lúcia. Ela acompanhou o rapaz, "olhando só para ele para ninguém desconfiasse de nada", como foi exigido. Ele conversava e sorria. Ela é estuprada num matagal próximo à delegacia. O agressor revela ter saído do presídio recentemente. Ela estava preso por ter matado o seu irmão. Diz para Ana: "Você é muito ignorante, mas é bonita". Ela chora e lhe pede pelo amor de Deus que pare de lhe tocar. Ele irrita-se, diz não aguentar mais ouvir esse nome, "pare com esse chororô". Diz não saber porque estava fazendo aquilo com ela, só sabia que não ia parar porque estava bom. Pergunta se ela tem dinheiro. Ele pede uma foto de lembrança, aponta para a casa onde mora. Recomenda que ela vá embora sem olhar para trás e não o denuncie, senão ele rodará os quatro cantos do mundo para encontrá-la e matá-la junto toda a família. Após a agressão, com medo de contrair HIV, Ana Lúcia dirigiu-se à Casa da Cidadania para pedir auxílio. Acompanhada por uma assistente social, ela foi ao Departamento de Proteção da Criança e do Adolescente, mas não pôde ser atendida porque era maior de 18 anos. Prestou queixa na delegacia, fez o exame no IML e foi encaminhada para o serviço de saúde de referência.

8 - Cristine: abuso pelo pai dos sete aos 13 anos, e a sua mãe sabia

Ao nascer, Cristine não foi aceita pelo pai e foi criada pela avó materna, porque ele queria que o primeiro filho fosse homem. Quando completou sete anos, sonhando conviver com sua família, ela foi morar com os pais. O pai não a deixou ficar no quarto dos irmãos e a colocou para dormir na sala. À noite, com todos dormindo, ele passa a ir até onde Cristine dorme. Toca-lhe o corpo, alisa seu peito e, ao perceber seu choro, a ameaça. Coloca um revólver do seu lado e avisa que se contar a alguém ela morre. Cristine é abusada dos sete aos treze anos. O pai faz um buraco na parede do banheiro para lhe observar durante o banho. Ele lhe diz que ninguém pode com ele, que "aqui na terra ele pode mais que Deus. O medo "me fraquejava". Ela temia não ser mais virgem. Cristine sente-se uma escrava em sua casa. É tratada de modo diferente dos irmãos, realiza todas as tarefas domésticas e não entende o motivo. Acha-se rejeitada e perseguida pelos pais. Apanha com chicote, leva murros do pai e surras da mãe. Ela decide contar para a irmã e uma prima o que acontece durante a noite. A prima lhe aconselha falar com a mãe. Esta, não acredita, ou melhor diz que ela deve estar dando motivo para isso acontecer e passa a ameaçá-la. Sempre que fazia algo errado ou deixa alguma tarefa doméstica sem realizar, a mãe avisa que vai contar ao marido o que ela lhe contou. "Ela usava isso pra cima de mim como se fosse uma arma". Cristine sente-se vigiada. Não pode sair só de casa nem conversar com ninguém, um dos pais está sempre por perto. Ela não sabe a quem pedir ajuda. Um dia, conversando com uma funcionária da biblioteca da escola onde estuda, Cristine relata sua história e é levada a um serviço de saúde de referência. Faz exame clínico e ginecológico, acompanhamento psicológico e é apoiada na processo de saída de casa. Ela vai morar com um primo que solicita sua guarda à justiça e denuncia o pai. O delegado quer provas para prendê-lo e sugere: "Você deixa seu pai lhe espancar... e depois que ele lhe espancar bem muito você corre pra cá!". Ela lhe faz uma contra-proposta: abrir uma sindicância no local onde ela reside para investigar quem ele é. Após prestar queixa ela faz o exame de corpo de delito. Fica aliviada por ainda ser virgem. Os pais de Cristine continuaram ameaçando-a por longo tempo, acusaram-na de prostituição, de levantar falso testemunho e não foram punidos pelo crime.

9 - Adelina: teve medo de o marido responsabilizá-la pelo estupro

Adelina voltava de uma festa, com uma amiga e o marido, e foram abordados por três rapazes armados de revólver. Era um assalto. O marido da amiga foi imobilizado e sua mulher ameaçada de morte. Adelina foi espancada pelo assaltante que percebeu sua tentativa de esconder alguns pertences. Um dos rapazes lhe puxou pelos cabelos, deu murros, coronhadas de revólver e atirou duas vezes perto de seus ouvidos. Ele a levou para o lado de uma barraca que havia na calçada, um local mais escuro, e a estuprou. Um segundo assaltante aproximou-se também para violentá-la e lhe mordeu os seios. Ela ficou com medo de alguma doença, de ter contraído Aids. Sentiu dores, nojo e raiva dos agressores. Também teve medo de ser responsabilizada pelo marido pelo que ocorrera. Foi até a casa de sua mãe e não conseguiu acordá-la. Decidiu dormir na casa da amiga. No dia seguinte foram a um hospital onde foi examinada (mas não medicada) e encaminhada ao serviço de referência. Era domingo, não havia pessoal preparado para atendê-la. Ela não foi examinada, nem recebeu qualquer orientação. Pediram-lhe que retornasse no dia seguinte. Voltou ao serviço dois dias depois por insistência do marido. "Você vá. Você não conhece esses maus elementos, não sabe o que eles têm, é melhor fazer um exame, senão eu não quero nada com você não". Nessa consulta foram tomadas as providências para anticoncepção de emergência e profilaxia de doenças sexualmente transmissíveis e iniciado o acompanhamento psicológico. A demora na entrega dos exames é a única queixa de Adelina em relação aos serviços de saúde. O atendimento da equipe especializada foi considerado muito bom. Sentiu-se protegida. O marido de Adelina só acreditou que a mulher foi agredida depois da confirmação médica e só passou a ajudá-la após uma conversa com a psicóloga. Até então ele acreditava que ela era a culpada e ameaçou-a com a separação caso o teste anti-HIV fosse positivo. Ao deixar o hospital, Adelina procurou a amiga para prestar queixa, porque ela havia reconhecido um dos agressores pela voz. Mas a amiga se recusou a testemunhar. Com medo de uma possível vingança, Adelina desistiu de denunciar os assaltantes. Mas dois dos três assaltantes foram presos por ferir um policial. Um deles tinha uma tatuagem no braço. O pai de Adelina fez o reconhecimento na delegacia a partir de suas informações. Adelina mudou de opinião sobre a violência sexual, que, para ela, não existia. Ela achava que as mulheres que diziam ter sofrido estupro estavam inventando, tanto que, quando apareciam denúncias na televisão, essas mulheres nunca mostravam o rosto. Agora ela entende os motivos que levam um mulher vítima de abuso não mostrar o rosto nem falar sobre assunto. Mesmo assim, ela recomenda as mulheres vítimas de violência denunciem os agressores.





Acusações de abuso de 39 vítimas do médico Abdelmassih.
novembro de 2010

Ai o médico levantou a camisola da paciente e a estuprou.
julho de 2009

Violência contra a mulher.


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